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Meio que Todo Mundo é o Fantasma de Alguém: a música de Yuri Costa como fotografia sonora

Foto do escritor: Proscênio
Proscênio
30 de out.
13 min de leitura

O primeiro álbum de estúdio de Yuri Costa engloba mais de 10 anos de carreira e temas sensíveis à juventude suburbana.



Morei quase 20 anos em Realengo, e vivi um desespero existencial naquele lugar, principalmente no início da adolescência. Eu, um jovenzinho esquisito, que só consumia coisas esquisitas, tinha certa dificuldade de encontrar meu nicho ali, um lugar abandonado pela agenda cultural carioca. Aos poucos, fui desvendando agentes culturais daquele lugar que faziam tudo na mão e na raça, mas só realmente me encontrei na arte local com a música de Yuri Costa.


Yuri é um artista que tem uma facilidade absurda de pintar cenários cotidianos, dentro do que é palpável para uma juventude suburbana. Ele lança suas músicas na internet desde 2013, começando no Soundcloud, e foi aos poucos ganhando espaço no coração de quem corria ao desalento no underground fluminense. Com um trabalho de formiguinha, lançando demos e gravações ao vivo em plataformas como YouTube e Bandcamp, chegou a ser homenageado na coletânea Ninguém é Forte Sozinho, na qual mais de 40 artistas fizeram novas versões de suas canções, que são clássicos secretos para quem o acompanha faz tempo.


Apesar de ter tanto tempo de estrada, “Meio que Todo Mundo é o Fantasma de Alguém” é seu primeiro álbum de estúdio, e seu segundo lançamento profissional depois do EP “Anjo Elétrico”. A grande maioria das músicas lançadas nesses projetos eu já escutava em todo rolé que tinha o Yuri e a presença de um violão. Todo mundo cantava junto, existia uma comunhão forte em volta dos tópicos relatados em suas composições, tanto que esse projeto é quase um “greatest hits” das canções preferidas de quem o segue.


Para quem já conhece o Yuri, o disco é quase como um álbum de fotografias sonoras, pegando assuntos e imagens muito específicas de tempos atrás, daquele tipo que você abre de vez em quando para mostrar fotos antigas para alguém. Mas a identificação também serve para quem não conhece, pois ele fala de temas comuns a todos que foram jovens em áreas de subúrbio e seus percalços, envolvidos de um sentimentalismo nostálgico e extremamente imagético.


A tracklist do álbum foi desenvolvida a partir do repertório que o músico criou quando começou a tocar com banda completa, e foi gravado em duas sessões no LF Studio, em Realengo. Ter uma banda em si já é uma grande novidade pro Yuri, já que até pouco tempo atrás ele só tocava no esquema “voz e violão". As canções que eles tocam ao vivo são basicamente um apanhado das melhores demos lançadas até aqui, e isso reflete diretamente na seleção do disco.


“Ele fala do passado, mas acredito que ele vai ser um álbum de muita importância mais pra frente, para algo de redescoberta. Por eu ter feito essas músicas enquanto era mais jovem, enxergo que ele pode ter um diálogo com as gerações mais jovens. Então ao mesmo tempo que ele é passado, também é futuro, e essa dicotomia está no título do álbum, na capa”, conta Yuri sobre o significado do projeto.


Foto: Caio Venicios
Foto: Caio Venicios

A capa, inclusive, é feita pela Bela (@schonstemond.bela), e é um retrato dúbio da representação fantasmagórica contida no álbum. Uma caixa torácica cercada de tons esverdeados, que caminha entre o mórbido e o humano, entre algo que nos une enquanto seres e também nos assombra, seja por morte ou pelo que morreu, ficou para trás. São os esqueletos no armário, a lembrança de um passado morto que por si só é fantasma. Quando Yuri bateu o olho nessa arte, não hesitou em confirmá-la como capa do álbum, já que além de toda essa representação, ela ainda conversava com a estética e paleta de cores de seus projetos anteriores.


Neste projeto, cada música é uma lembrança, uma fotografia, uma pulsão de vida quanto à moribunda nostalgia. O faixa a faixa a seguir explora as histórias por trás dessas composições e recupera seus diferentes momentos na trajetória de Yuri.


FALANDO DISCO: MEIO QUE TODO MUNDO É O FANTASMA DE ALGUÉM


Favoritas de Victor Silveira: Jazz, Patrimônio, Halls Preta

Favoritas de Yuri Neri: Heroína, Geografia, Joy Division


Ficha Técnica


Banda:

Yuri Costa @maiorfiasco - vocais, guitarra base e SFX

Alvaro Mendes @alvaromndx - guitarra solo

Arthur Xavier @gornbo - chocalho e pandeirola

Beatriz Firmino @biarameta - backing vocal e flauta transversal

Paulo Vitor Castro (Caxtrinho) @caxtrinbxd - conga, bongôs e percussão bateria

Eduardo Ribeiro - bateria

Lorenzo Ciambelli @lorenzo.ciambelli - flautas transversais

Pedro Proença @punksterbass - baixo

Theo Necyk @theonecyk - trompete, sintetizador e flugelhorn


Arranjo de sopros: Lorenzo Ciambelli

Direção vocal: Arthur Xavier


Letra e Composição:

Yuri Costa, exceto faixa 4 (Yuri Costa e Danca Mesquita @dancaparecida )


Gravado no LF Studio RJ @lf_studio_rj por Luis Felipe Monteiro, Tutsstudio por Arthur Xavier, Tapumim Records por Lorenzo Ciambelli e Escritório da Transfusão @escritorio_transfusao por Gabriel Nunes @gabriel_umbriel no Rio de Janeiro entre maio de 2024 e julho de 2026.


Produção Executiva: Arthur Xavier / MINISSOM @minissom


Mixagem: Arthur Xavier


Masterização: Otávio Brunet @otaviobrunet


Arte de Capa: Isabela Schonstemond @schonstemond.bela


Halls Preta


Lançamento original: Ao vivo na Ble Galeria (2022)


Talvez a canção que mais reflete a juventude, “Halls Preta” conta a história de quando o músico ainda era criança e viu jovens grafitando um muro em Realengo, na esquina da Rua Dr. Lessa com a Av. Santa Cruz. A música faz questão de colocar essa referência geográfica, posicionando também uma experiência muito específica: o clima, local, horário e tudo que possa te transportar para um ambiente de rebeldia.


“Eu lembro como uma cena fotografada, como um lapso, deles olhando pra mim. Eles estavam usando uma blusa na cabeça, acho que tanto pela tinta quanto para não serem identificados, só marcando os olhos. Esse foi um negócio que me marcou muito, quase uma fração de segundos, mas eu nunca esqueci”, descreve Yuri.


A ideia de usar a Halls Preta como símbolo, por exemplo, é que a bala já foi muito usada por ele como uma forma de quebrar a tensão social, como também poderia ser um chiclete ou cigarro. De acordo com o compositor, o refrão é carregado desse desconforto de uma situação tensa, mas recompensadora. A citação de que essa é a melhor noite de toda a vida do narrador dá uma sensação de libertação e euforia, de viver intensamente como jovens que se arriscam pichando muros.


A música ganhou uma roupagem puxada para o indie rock a partir de um esforço coletivo: as interferências de gravações de fita foram ideia do Yuri, mas a sonoridade foi uma junção das ideias que a banda de apoio desenvolveu para traduzir o sentimento da canção para algo a ser feito com a banda completa. “Apesar de ser um disco solo, não considero que ele tenha sido 100% pensado só por mim” afirma o músico, destacando a atuação do produtor Arthur Xavier e do resto da banda.


Aderência (Dispersão do Espírito)


Lançamento original: Sem Medo (2021)


Existe um aspecto psicológico em todas as canções do Yuri, principalmente na forma como ele interpreta e imprime sua personalidade em situações cotidianas, mas “Aderência” vai um pouco além. De acordo com o cantor, essa foi uma canção muito influenciada por literatura e psicanálise: “As influências são as cartas de Fernando Pessoa para Mario de Sá Carneiro, o livro Dispersão do Mario de Sá-Carneiro, e o Seminário 5 do Jacques Lacan. Não sei como as outras pessoas são, mas quando me sinto sem chão para me estabilizar preciso me apegar a coisas físicas, geralmente conhecimento, e foi aí que tive meu primeiro contato com a psicanálise”, relata.


Ela possui uma inquietação mais abstrata e psicodélica sobre um narrador perdido dentro de como se reconhece. São símbolos que parecem um sonho, e possuem uma relação com o sentimento de dissociação, de encaixar você consigo mesmo. Yuri conta que a canção foi escrita no período pandêmico, o que também agrava a sensação de desconexão impressa pela faixa.


Essa canção também já conta com alguns elementos a mais, como os metais, dirigidos por Lorenzo Ciambelli, que foi adaptando a demanda do compositor até achar uma sonoridade que fosse mais tipicamente brasileira: “expliquei que queria um negócio meio Tim Maia. Não queria algo que me lembrasse algo do exterior, e o Tim Maia, por exemplo, conseguiu sintetizar essas paradas e tornar isso brasileiro, consigo ouvir o som e saber que é Tim Maia”.


Geografia


Lançamento original: O Natal de Charlie Brown (2017) / Crises Leves (2020)


Assim como em “Inuyasha”, canção do seu último EP, em “Geografia” Yuri utiliza artifícios muito específicos de sua infância, convidando o ouvinte para uma viagem ao subconsciente do cantor. Para ele, foi muito melhor que essa música tenha sido gravada com certo desprendimento temporal, pois foi uma composição feita numa época triste de sua vida. “Escrevi “Geografia” no contexto do falecimento da minha avó, tanto que tem muito da questão familiar envolvida na letra, mas também muito da lembrança da escola. Eu estava ali no final da escola, quase indo pra faculdade, sem saber muito o que fazer.”, relatou sobre o que, segundo ele, é uma de suas melhores canções a nível de letra e composição.


A situação do filme na escola, por exemplo, é uma sensação muito particular que foi abraçada por muitos ouvintes e, eventualmente, universalizada como uma memória de desconforto da infância. Para Yuri, essa identificação é curiosa: “Eu tenho o dom de olhar para a coisa inútil, e a partir desse olhar eu consigo, por exemplo, em um dia aleatório pensar na importância do que é ver um filme na escola, no período letivo, e sentir uma solidão inexplicável. Não entendo muito como funciona o processo de assimilação de ser eu, então ver filme na escola era uma quebra na aula, dava uma sensação de incompletude ao desligar a luz”.


Descrevendo as sensações de compor e posteriormente revisitar essa faixa, o músico contou uma história de infância relacionada a um colega de classe e ao tema da letra: ”Ele era um moleque muito homofóbico, e eu sofri muito bullying com ele quando criança, apesar de eu não ser LGBTQIA+. A gente assistiu o filme Diários de Motocicleta, que o Che Guevara anda de moto pela América Latina, e esse colega chorou. Ele chorou, botou a mão na minha mão e eu botei a mão na mão dele, fiquei consolando pra ele não chorar. Quando a professora liga a luz, ele começou a meter um "ahhh viadinhoooo, tá chorando" e eu fiquei meio "Caralho, mano, você que tava chorando aqui agora". É engraçado pois você vai aprendendo as facetas do ser humano, que quer sempre sair por cima.”


Para Yuri, “Geografia” é um compilado de dor e sofrimento, e por isso é tão descritiva, trazendo contexto pessoal, escolar e outros devaneios para externalizar esse sentimento. “Ao longo dos anos comecei a tocar ela e sentia desespero em tocá-la, mas comecei a tocar depois no sentido de precisar enfrentar esse sentimento, e ela ser o primeiro single diz muito sobre a minha maturidade”.


Perturbação Psíquica


Lançamento original: EP AZUL (2019)


Ao contrário das outras faixas, a letra de “Perturbação Psíquica” foi escrita por Danca Mesquita, esposa de Yuri, quando ainda eram amigos. Enquanto confidentes, Yuri desabafou para ela que estava sonhando muito com uma ex-namorada, e isso o deixava perturbado, que não era algo comum. Inspirada na situação, ela compôs uma poesia que é a base da letra da música, descrevendo uma história de um amor que bagunça, incomoda e não é muito fácil de lidar, quase como uma paranoia que pousa na cabeça do narrador a todo tempo.


“O que me pescou foi que, quando escrevemos sobre a gente o estilo é um, e quando alguém de fora escreve sobre você o estilo é outro, é como se fosse uma carta que alguém escreveu sobre mim, só que sem citar nomes. Isso me chamou atenção na época porque é muito simbólico né, e não necessariamente é tão direto. Gostei do fato de não ser tão direto, pois talvez a Danca não soubesse exatamente o que eu queria escrever”, conta Yuri sobre essa mudança de perspectiva.


Em questão de sonoridade, o músico tinha a intenção de fazer um arranjo para a canção que começasse mais lentamente, tornando-se um samba em uma virada em certo ponto. Porém, para ele o resultado final ficou mais ambíguo, criando uma progressão gradual até chegar nesse ritmo, o que adiciona uma tensão necessária à faixa.


Vermelha


Lançamento original: música solta no soundcloud em 2017 / Real Guanabara (2019)


A versão do álbum de “Vermelha” pode ser a maior surpresa para quem já conhece o trabalho do Yuri. Previamente, era apresentada como uma baladinha mais romântica, tenra. A nova versão trabalha com algo mais sexy, com uma performance vocal digna de um “crooner”. Porém, a intenção do músico era trazer um aspecto “Lynchiano” para ela, ou seja, baseado nos trabalhos surrealistas do diretor David Lynch. Para chegar a esse resultado, Yuri e o produtor do álbum fizeram um trabalho de manipulação da gravação original, deixando-a mais lenta e com mais peso, o que traz esse gingado diferenciado na discografia do músico até aqui.


A letra da música em si é de amor, uma das poucas que Yuri disse que escreveu apaixonado, mas que não fala de nenhuma pessoa em específico. Ironicamente, o trecho “Eu só me apaixono pela minha melhor amiga” se concretizou: atualmente o compositor é casado com alguém que foi sua melhor amiga por anos, e por isso alguns acreditam que “Vermelha” seria sobre ela, mas é só uma coincidência que reafirma a letra.


Joy Division


Lançamento original: metiolate (2018)


Eu ainda voto em Realengo (transfira seu título, muito importante!), e no primeiro turno fui para lá ouvindo o álbum na preparação para a entrevista. Coincidentemente, passei pela Vila Militar, local onde fiz uma das partes do meu alistamento, enquanto tocava “Joy Division”, uma faixa que fala sobre esse momento na vida do adolescente. Aqui, a faixa já dá outro contexto muito fotográfico e específico da juventude, apresentando um lado muito sensível da amizade masculina.


Yuri conta que já ouviu relatos, por exemplo, de mulheres que se sentem muito impactadas pela letra por demonstrar afeto dentro de uma amizade masculina, algo pouco usual nas artes. Essa é uma canção escrita para Ygor, amigo de longa data de Yuri, que passou pelo momento do alistamento com ele: “Ygor é muito resistente a coisas novas, então eu chegava pra ele e falava "olha aqui essa banda" e ele falava que um dia ia ouvir. Ele é o tipo de pessoa que escuta as 10 melhores músicas de fulano de tal, não é alguém que escuta discografia. Mas ironicamente ele vivia me dizendo que um dia me daria uma blusa de uma banda, mas nunca deu”, conta.


Pois é. Ele nunca deu uma camisa. Furo de reportagem aí. Eles só estavam ouvindo a banda Joy Division no dia do alistamento, mas a camisa era mais uma promessa que nunca foi cumprida. Mas, de qualquer forma, essa também é outra canção que comove o público toda vez que é tocada ao vivo, principalmente por seus signos de fácil identificação: “fico com uma sensação de tanta felicidade que não consigo me expressar, pois essa pessoa conseguiu assimilar a música em algum lugar que eu não tenho domínio, que é a memória dela”, relata o cantor sobre as reações das pessoas sobre “Joy Division”.


Por ser uma das composições mais queridas pelos fãs, essa foi uma das mais difíceis de gravar, muito pela responsabilidade de entregar algo especial. A ideia de Yuri foi manter a energia do ao vivo, mas com certa melancolia que a letra carrega. Para chegar no ponto ideal, diversas versões foram feitas em cima da base gravada em estúdio até chegar num equilíbrio de tensão e tristeza ideal.


Heroína


Lançamento original: TRS OLHOS / YURI COSTA (2016)


Outra canção bem abstrata, “Heroína” para Yuri é uma grande brincadeira, tanto nos acordes simples quanto nas tiradas da letra. Ele conta que essa foi uma faixa composta sobre sua experiência de viagens ao Rio Grande do Sul quando era adolescente, e sua crescente paixão na época por sair de madrugada e observar os elementos desse período, algo que, de acordo com o compositor, cerceia todo o projeto. É a junção da inocência da infância com a chegada da juventude, principalmente retratada nas “descobertas” que se repetem ao longo da faixa.


Jazz



Jazz foi uma música que eu perturbei muito o Yuri para lançar, pois foi amor à primeira ouvida. Ela é a epítome da melancolia no álbum, com um tom soturno que ao mesmo tempo traz certo conforto, e também certa conformidade com a passagem do tempo e o mundo ao redor. Seu conceito me remete um pouco à canção “Não Sei Dançar”, da Marina Lima, que pinta um cenário daquela madrugada em que o céu está querendo ficar claro, as ruas ficam estáticas e as luzes dos postes começam a brigar com o amanhecer.


“Sabe quando você está de madrugada, andando num carro, geralmente bêbado e vê o dia levantando ali perto do Aeroporto, a cor ganhando cor e que toda aquela festa ficou pra trás, só tem você. Foi mais ou menos isso que tentei capturar, que de tudo ali só ficou você”


Apesar da primeira conexão que possa ser feita com seu tema seja ao gênero, o músico conta que sua inspiração vem da coleção Jazz de Henri Matisse: “O Jazz pra mim começa das artes plásticas, pois quando compus estava pensando no Henri Matisse, que ao final da vida, sem muita mobilidade, começa a cortar cartolinas e montar quadros a partir de recorte. O corte, evidentemente para uma pessoa debilitada, não é lá um corte muito certeiro. Então vem de um lugar de improviso, mas foquei na parte dos recortes das imagens. O avião, a cozinha, a coisa de que os anos 90 são vintage e que as coisas vão mudar. Jazz pra mim é o recorte da imagem”, explica.


Patrimônio


Lançamento original: Single com projeto Real Engenho (2020)


Por fim, “Patrimônio” é uma das músicas mais celebradas do cantor, e retorna a uma gravação de estúdio após já ter sido gravada tanto no projeto Real Engenho quanto no EP Anjo Elétrico. Tenho uma história particular com essa também, pois lembro dele tocando ela para mim na minha primeira visita à casa dele pós pandemia, e foi uma canção que me impactou de primeira. Dentro do contexto pandêmico, ela faz mais sentido ainda, e Yuri acredita que é sua música mais política:


“Escrevi essa música num lindo dia de sol, em que eu fui levar uma encomenda para meu cunhado no centro de Nova Iguaçu. Eu tava lá nos Correios de máscara, e todo mundo de máscara também, mas eu não estava acostumado a ver esse pessoal todo circulando na rua, me sentia enclausurado. Tudo bem que teve gente que viveu a pandemia como se fosse um feriadão, mas a gente viveu na risca por viver com idosos, hipertensos, diabéticos e outros em casa.

Nesse dia, eu estava na rua, e o centro de Nova Iguaçu é muito movimentado, e andando por ali vi uma poça de urina na frente de um busto. Aí comecei a refletir, grande parte da letra dessa música é meu trajeto de Nova Iguaçu até Realengo refletindo sobre símbolos ao redor. O texto de Isaías, realmente alguém tirou da Bíblia e colou num ponto de ônibus. Eu só li Isaías, mas tinha várias páginas lá.

Acho que é minha música mais política, algo que não costumo falar frontalmente nas minhas músicas, mas essa aí talvez pelo lugar de fala de ser museólogo, falar de patrimônio, cultura, imagem e sociedade é também falar do cotidiano. É pensar num futuro não só de que as crianças vão desrespeitar o patrimônio, mas talvez criar um novo status quo, um novo processo de esperança”, relata o cantor.


Esse tom de esperança encerra o álbum refletindo toda a jornada de gravação do projeto, que levou três anos para ser concluído. Para Yuri, todo esse processo foi uma reafirmação de ter confiança na sua música.


“Acredite no que você faz, não importa quanto tempo leve. A gente olha pro mundo como se ele tivesse chegado no teto, como se não houvesse mais criatividade, arte e se o futuro fosse um grande prompt. Mas, na prática, tem muita gente boa fazendo milhares de coisas todos os dias. Esse álbum, apesar de solo, é extremamente coletivo, reunindo uma galera incrível que mostra como isso é verdade”

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