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Em cena #003 - Conflito Geográfico: Caxtrinho x Cris Onofre

Foto do escritor: Victor Silveira
Victor Silveira
há 4 dias
4 min de leitura

Atualizado: há 3 dias


Tudo no Rio de Janeiro é sobre território, e a tensão causada pelos trânsitos do pertencimento, ocupação e reivindicação é mais parte do dialeto e da personalidade do cidadão fluminense do que nunca. A relação entre locais que são deixados de lado e a zona sul apresenta uma dolorida fricção: um lado foi escolhido para ser o cartão postal, enquanto a zona oeste e a baixada fluminense se reafirmam no fato de que são o principal alicerce da região metropolitana, ou seja, sem elas a cidade não funciona nem seria o que é, mas mesmo assim vivem ao léu, tomadas pela milícia, pelo narcopentecostalismo e sofrem com abandono governamental.


Olhando para esse atrito, fica clara a intenção do Conflito Geográfico, show que rolou no Trauma, casa de show do Centro do Rio no dia 29/10, e que foi desenvolvido por Cris Onofre (@foradecompasso), representante da música experimental na zona oeste com o projeto Crizin da Z.O., e Caxtrinho (@caxtrinbxd), músico cria de Bel, de retratar essa tensão. Só a junção desses dois nomes já era promissora, mas a ideia de apresentar dois lados da música em um contexto de confronto, acaba criando uma antítese ao cenário musical imposto no estereótipo carioca.



Foto: Victor Silveira
Foto: Victor Silveira

Noite chuvosa já é quase atestado de morte para um evento no Rio, já que raramente o carioca se dispõe a sair nesse clima, mas cerca de 20 pessoas resolveram dar o benefício da dúvida para essa empreitada. Quando entrei no local, cheguei a ter minhas dúvidas se iriam dar essa moral, tanto que só tinha eu, minha namorada e os artistas lá dentro. Troquei uma ideia com o Caxtrinho sobre Belford Roxo, local que vivi no início da infância, já na onda desse desconforto geográfico implícito ao morador do município como, por exemplo, a falta de árvores na região, algo que vai piorando quanto mais afastado da zona sul você vai.


Enquanto o show não começava, as luzes indiretas e o som ambiente groovadinho davam tom de descontração no local, completamente dissociado do caos que os esperava, até que, em certo momento, Caxtrinho vem puxar todo mundo para o palco dançando e cantando, levando o rebanho para a toca do lobo. Assim, não se engane, o concerto ainda foi uma celebração, principalmente num contexto pós eleição de Lula, mas talvez um desavisado esperasse um show do Caxtrinho e outro do Cris, e não os dois ao mesmo tempo, sem abandonar suas características sonoras em momento algum.


Foto: Victor Silveira
Foto: Victor Silveira

Um sample de anúncio de trem, percussão e cânticos debochados quanto aos perdedores da eleição iniciaram o show, com elementos eletrônicos se incorporando ao vocal carismático de Caxtrinho em uma receita pouco usual, mas que exprimia o sentimento do momento de festa entremeado com a tensão de quem sempre espera o próximo terror à espreita. A luz vermelha dá o tom, o desconforto da mistura de sons cria objetos de contestação pontiagudos, mas que não parecem tanto um eco do perigo, e sim um manifesto à criatividade e artilharia que o nosso lado manifesta.


Em linhas simples, eram as influências do samba e da MPB da música do Caxtrinho entrelaçadas por decorações da sonoridade industrial dos trabalhos do Cris, convergindo para sons que são familiares para os presentes, mas apresentados em uma roupagem fora do usual. É a junção de dois fenômenos da música criando o novo, sem pestanejar e sem abandonar o que cada fenômeno representa por si só.


Gravação por Pedro Montenegro

O carisma do Caxtrinho, por exemplo, aliviava as propostas do concerto, puxando o público de forma similar com a que faz nos shows de seu projeto autoral. O apocalipse sonoro de Cris Onofre dá o tom confrontativo, que agora imprime manifesto no coração do centro da cidade. Sem o ímpeto de imprimir a insatisfação, a raiva, o desejo de vingança quanto ao lado de lá, eles não entenderão qual é o imbróglio na barriga de quem está do lado de cá.


Certo momento, as luzes do ambiente se apagam, e as intenções se misturam cada vez mais. Por exemplo, uma hora Cris declama a poesia da letra de “Baía”, que saiu no EP “ACLR+6” do Crizin da Z.O., enquanto Caxtrinho toca partes de sua canção “Queda Livre”, sendo o ponto mais comum de convergência do evento. Daí para frente, outras canções clássicas do samba, como “Estatutos da Gafieira”, se misturam com um noise industrial que destaca a temática das letras, que talvez não teriam tanta atenção em seus arranjos originais.


Esse é o principal triunfo do experimento: demonstrar novas facetas a sonoridades já estabelecidas, tornando o confronto geográfico proposto em algo que, apesar de apresentar certa estranheza, ainda partir de um lugar que pode ser de conforto a quem já está inserido na cena e nos trabalhos dos músicos. Perto do fim do show, por exemplo, as luzes se acendem e Caxtrinho senta no chão e se comunica mais diretamente com o público, algo que traz o público de volta à realidade, mas de forma muito amigável.


A apresentação termina com o Caxtrinho estático fazendo o L enquanto o Cris agradece a presença da galera e emenda num DJ set que mistura noise, industrial, funk e outros elementos de seu trabalho. Fico mais um pouco por lá, até um dos artistas me perguntar o que eu achei do rolé e, na falta de alguma síntese mais verborrágica, eu falo: “porra, é Conflito Geográfico mesmo, né”.

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