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Em Cena #002 - 1º Banda de Casinha em Niterói

Foto do escritor: Yuri Neri
Yuri Neri
1 de out.
8 min de leitura
Arte e foto referente ao evento Banda de Casinha, com show da banda Yuri e os Terráqueos

Foi só depois de comprar o ingresso para a primeira edição do Banda de Casinha em Niterói que me dei conta de uma pequena heresia pessoal: eu nunca visitara a pequena casa onde emos, indies e outros espécimes do rock brasileiro vêm se encontrando desde 2023.


Não foi por falta de oportunidade ou de endereço, já que o Banda de Casinha é uma residência itinerante, apesar das raízes paulistas. Desde que surgiu há três anos, o projeto já levou suas bandas, cartazes e público para mais de 15 cidades em, pelo menos, 6 estados.


Em 19 de setembro, após seis edições na capital fluminense, a iniciativa cruzou a Ponte Rio–Niterói e desembarcou em Niterói. O local da vez era a Pantoja Discos, loja que já se aproxima dos sete anos de existência, mas acabara de inaugurar um novo espaço pensado também para receber shows e festas, na Dr. Celestino, 8, no Centro de Nikity. Entre prateleiras de vinis e um lindo lustre logo acima do palco, Mais Um Dia, Sonho Líquido e Yuri e os Terráqueos receberam o público da estreia niteroiense com casa cheia — a ponto de fazer com que o diminutivo do nome do evento fosse pura modéstia.


A little house, contudo, não era novidade para muitos niteroienses. Antes de chegar à cidade, parte do público fluminense já fazia o caminho contrário para acompanhar as edições cariocas, movimento que também incluía gente de São Gonçalo e de outras regiões adjacentes e ajudou a colocar este lado da Baía no mapa do projeto. “Muita gente vai de Niterói ou de São Gonçalo quando fazemos o Banda de Casinha no Rio. Então a gente pensou: ‘vamos tentar levar o projeto para mais perto dessa galera’”, conta Hugo Daflon, um dos produtores.


Embora o endereço mude a cada edição, a ideia é justamente que o público continue se sentindo em casinha — ok, vou tentar maneirar nos trocadilhos. Hugo define a iniciativa como um “porto seguro”, um lugar para conhecer novos artistas e pessoas e fortalecer um circuito em torno da música. “É para a galera se sentir em casa, conhecer novas pessoas, conhecer novas bandas e ir criando esse ecossistema em que a música é o elemento principal, mas ultrapassa muito a ideia só de música.”


O que eu não sabia, até pouco tempo atrás, é que a casinha do nome existe de verdade. E fica bem longe da terra de Arariboia. A referência vem de Urbana, Illinois, e da casa que estampa a capa do primeiro disco do American Football, lançado em 1999 e convertido, com o tempo, em uma das imagens mais reconhecíveis do midwest emo. Não por acaso, a primeira edição do Banda de Casinha aconteceu em São Paulo, em 2023, como um esquenta para a primeira passagem do grupo pelo Brasil, reunindo bandas brasileiras influenciadas direta ou indiretamente por ele.


A origem ajuda a explicar por que o emo está tão presente no DNA do evento, embora hoje o gênero já não dê conta sozinho de seus lineups. Em três anos, a programação abriu espaço também para indie, shoegaze, rock alternativo e outras vertentes do rock nacional.


De Urbana a Niterói, a chegada do Banda de Casinha à Pantoja Discos começou a se desenhar antes mesmo de o novo espaço ficar pronto. José Pantoja, responsável pelo endereço, conta que ainda nem havia pintado as paredes quando mostrou o lugar a Yuri Terra, dos Terráqueos. O músico sabia que o Banda de Casinha procurava um local para estrear em Niterói e fez a ponte entre os dois. “Foi um date perfeito”, resume José.


A coincidência vinha a calhar porque receber música ao vivo era um plano antigo da Pantoja. José explica que amadurecia havia cerca de cinco anos a ideia de ampliar as atividades da loja, abrindo espaço também para teatro, artes plásticas, poesia, cursos, workshops e “tudo que der na telha”.


O Banda de Casinha foi apenas o segundo evento realizado por ali — uma semana antes, o espaço havia recebido a festa BREU — e o primeiro com bandas. “Eu estava superempolgado e na expectativa de como soaria a acústica do espaço com outras bandas. O som ficou incrível, deu para ouvir todos os músicos nitidamente”, lembra.


Mais Um Dia


Se a Pantoja estreava em eventos com bandas, uma delas também estreava… como banda. A gonçalense Mais Um Dia abriu a noite fazendo o primeiro show de sua trajetória, pouco mais de dois meses depois de lançar o EP “Sem ressentimentos”. Apesar da estreia, os quatro integrantes já carregavam experiência de outros projetos da cena independente — como Lunoz e Wonderful Now — e trabalhavam juntos naquele repertório havia mais de um ano.


Boa parte das músicas nasceu no estúdio, em um processo que a banda define como “compor gravando”. Os ensaios para o show começaram apenas algumas semanas antes da apresentação e serviram também para desmontar e remontar aquilo que já estava registrado nas tracks. “A banda é nova, então a gente aprende a ser a banda ao vivo. Não é no ensaio. No ensaio a gente aprende a música”, brincam os integrantes.


Lançado em julho, “Sem ressentimentos” utiliza camadas de emo, shoegaze, dream pop e math rock para falar de rotina, desgaste e recomeços. No palco da Pantoja, porém, o repertório já apontava para o que vem depois dele: além das cinco faixas do EP, a banda apresentou singles ainda em produção, com previsão de lançamento nos próximos meses.



Apesar de as referências não serem necessariamente as mesmas, há algo dos primeiros discos do Terno Rei na Mais Um Dia. Talvez eu crie essa associação devido às letras simples, afetivas e urbanas, que se aproveitam da melancolia da repetição dos dias e das pequenas coisas do cotidiano. De certa forma, o Terno Rei está para São Paulo como a Mais Um Dia começa a estar para São Gonçalo.


Essa relação está bem nítida logo no começo de “mais que palavras”. “Ansiedade que afeta o sono/Noite que dura uma eternidade/E a insanidade move a cidade/No caos urbano/Um mar de asfalto/Na correria do dia a dia”, canta Elton Souza, vocalista do grupo.


Minha favorita do show — e também de “Sem ressentimentos” — foi “Introdução ao lazer”, que segura as distorções até o refrão e fica, até lá, num pop-rock gostosíssimo. É quase um pequeno hino para uma juventude que já entendeu que não há realização pessoal garantida em um subemprego e que a vida não pode começar e terminar no expediente.


Mais Um Dia é Elton Souza (voz e guitarra), Gabriel Costa (guitarra), Guilherme Evangelista (baixo) e Lucas Rato (bateria).


Sonho Líquido


Enquanto a Mais Um Dia precisou descobrir como suas músicas existiam ao vivo depois de gravá-las, a Sonho Líquido chegou à Pantoja fazendo o caminho contrário. Das nove autorais tocadas pelo quarteto, apenas “te olho no espelho”, lançada em abril, podia ser encontrada nas plataformas. As outras oito já circulam pelos palcos do Rio de Janeiro antes mesmo de ganhar uma versão oficial.


“Já lançamos as músicas no palco antes de lançar no digital e eu acho que isso é uma grande vitória”, conta Julie Yukari, vocalista da Sonho Líquido. A banda já trabalha na produção de um álbum de nove faixas e pretende lançar mais um single ainda este ano, mas os planos de passar os primeiros meses concentrada nas gravações foram atropelados por uma sequência de convites para tocar.



E a Pantoja marcou mais um passo nessa trajetória. Segundo Julie, o show em Niterói representou o maior público diante do qual a Sonho Líquido havia tocado até então. “A casa estava lotada e eu senti as pessoas prestando atenção mesmo”, lembra. “A gente sentiu que as pessoas estavam conhecendo a gente de verdade ali.”


Para Julie, essa vida pré-streaming das músicas acabou mudando até a relação da própria banda com elas. Quem aparece em dois ou três shows já começa a reconhecer faixas que sequer têm lançamento, enquanto os músicos descobrem diante do público o que funciona, o que muda e como aquelas composições se comportam fora do ensaio. “A gente está vivendo as nossas músicas antes de enviar para as distribuidoras”, resume. A experiência, segundo ela, já deve chegar às gravações do álbum, agora feitas por uma banda com uma visão muito mais nítida de palco.


A relação com o Banda de Casinha, porém, começou antes de a Sonho Líquido existir em seus cartazes. Os integrantes já acompanhavam as edições como público — Kevin, segundo Julie, era o frequentador mais assíduo — e usavam a própria programação do projeto para descobrir música nova. “Sempre que o Banda de Casinha solta qualquer flyer, a gente já vai procurar as bandas”, conta. Depois que a Sonho Líquido se formou, a admiração ganhou também uma pontinha de interesse próprio. Quando Bia Vaccari — a fundadora do Banda de Casinha — publicava pistas sobre as próximas atrações, os integrantes apareciam nos comentários: “A gente já ficava lá enchendo o saco dela, coitada, falando: ‘chama a gente’”.


Ainda bem que Bia chamou. Autodefinida entre o shoegaze e o dream pop, a Sonho Líquido engrossa uma leva muito interessante de bandas fluminenses com vocais femininos, ao lado de nomes como Queda Livre, Tem Mais Acabou, Ratazanas Insanas e Klitoria. Gostei especialmente de ver como as oito músicas ainda não lançadas já parecem à vontade no palco — e saí da Pantoja mais curioso para ouvi-las de novo quando finalmente chegarem às plataformas.


Sonho Líquido é Julie Yukari (voz), Hugo Noguchi (baixo), Kevin Silvestre (guitarra) e Rafael Maciel (bateria).


Yuri e os Terráqueos


Quem acompanha o Proscênio já conhece bem PARAJORGE. O segundo disco de Yuri e os Terráqueos inaugurou o Falando Disco, nossa série de entrevistas faixa a faixa, no início de setembro. Poucas semanas depois, reencontramos as músicas no palco da Pantoja e com tempo suficiente para que algumas delas já voltassem da plateia em coro.


“Foi maneiro demais ver a galera já cantando algumas músicas”, conta Yuri Terra. Para ele, mais importante do que ouvir os versos de volta foi perceber que o público também estava entendendo, de fato, o que o disco queria dizer. “Muitas pessoas estão se identificando com o que a gente quer falar, que é ter mais vida, ter vida além do trabalho. Ter mais tempo de vivência e não de sobrevivência.”



O lançamento dos Terráqueos não apareceu inteiro no palco. A banda curtiu tanto como a sequência das cinco primeiras faixas funcionou ao vivo que decidiu mantê-la no início do set, mas algumas das canções mais lentas ficaram de fora. “Eu sinto muito uma quebra de clima. Eu gosto do show mais animado, mais para cima, mais agitado”, explica Yuri.


Pessoalmente, PARAJORGE soou ainda melhor ao vivo do que no disco. Entre as que mais curti, “OHOMEMDABAGVERMELHA” ganhou mais um de seus improvisos — com destaque para as guitarras de Otavio Brunet —, enquanto “DEUSREEXISTE”, minha favorita do álbum, foi um dos pontos altos do repertório. No bis, a banda relembreu duas faixas prévias ao trabalho novo, “Estranho Novo Mundo Que Já Vivi” e “Cigarros”.


A participação dos Terráqueos naquela noite também começou antes de subirem ao palco. Amigo de Bia Vaccari e veterano das “casinhas da vida”, Yuri ajudou a aproximar a produção de José Pantoja quando o projeto procurava um endereço para estrear em Niterói. Para ele, trazer iniciativas que já têm público próprio para este lado da Baía ajuda também a chamar atenção para o que já acontece por aqui.


“Muitos dos shows que acontecem aqui partem de nós mesmos. Então, algo com um certo prestígio, certo nome, vindo para nossa cidade faz também as pessoas olharem para nossa cena.”


Yuri e os Terráqueos são Yuri Terra (voz e guitarra), Lena Quadros (vocais e percussão), Andrew Moreira (bateria), Otavio Brunet (guitarra) e Wilson Neto (baixo).


1 comentário


Kelvin Emerich
02 de out.

banda de casinha foi uma baita surpresa boa! Ver YTRQS arregaçando e ver Sonho Liquido cada vez mais sólida sao sempre imagens belissimas. Conhecer Mais um Dia foi a grata surpresa. Nunca tinha ouvido, e ficou na cabeça. Tenho a impressao que o relogio na parede olha pro Rato pra se ajustar: o cara é o mago do tempo

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