Em Cena #001 - Fechamento de 13 anos do Escritório

O Fechamento na porta do Escritório, que fica na Rua da Constituição, 64, no Centro do Rio, é sempre uma caixinha de surpresas, e isso é consequência da sua proposta em ser um evento gratuito feito na rua, onde absolutamente tudo pode acontecer. Sabendo das possibilidades, fui atrás do Instagram do Samba da Volta, outro evento que acontece ao lado do Fechamento para ver se tinha alguma coisa lá no dia 29, mesmo dia dos shows da edição especial de 13 anos do Escritório, e realmente tinha. Existe uma rivalidade não verbal entre os dois, já que por mais de uma vez o Fechamento foi interrompido por reclamações dos organizadores do samba. Esse, então, era o problema que eu previa, mas não imaginava como a noite poderia surpreender.
Cheguei no local dessa vez mais cedo do que o normal, e tudo parecia um pouco diferente do normal. Primeiro que na própria Praça Tiradentes, que fica no caminho para o Escritório, estava acontecendo o festival MoviRio, e então a região estava mais movimentada do que o normal. No Escritório em si, o local ainda estava meio vazio, mas eram 19h e, mesmo que eles digam que o evento começa 18h, é de conhecimento geral que as coisas lá só começam mesmo uma ou duas horas depois do combinado.
Grande parte da calçada estava ocupada com artes das expositoras Juli Bezerra (@somosimagens), Lina (@sapodesalto) e Fada Punk (@ffadapunkk), o que reforça o movimento de que as artes visuais e musicais andam cada vez mais em colaboração dentro da cena. O destaque das lojinhas deu um espaço significativo para mulheres artistas em um nicho que precisa, de fato, colocar holofotes nesse tipo de produção. Destaque feminino que também marcava presença no próprio lineup do festival, que contou com participação da Janine (@janineprici) e da banda Kartas (@kartas.kartas.kartas).

Outra coisa que me chamou atenção foi o carro da Guarda Municipal que se instalou na esquina do outro quarteirão, com luzes que refletiam nas paredes da Rua da Constituição, dando certa tensão ao cenário, já que eles são parte da questão que já interrompeu outros Fechamentos. Quando comentei disso com os meninos que organizam o rolé, fui recebido com umas reações meio “vamos fazer o que, né?”, é deixar o show rolar e rezar pra ninguém encrencar. Mas o espaço ali é certamente um alvo fácil para intervenção, principalmente em uma época em que a escalada de guardinhas tiktokers, que pagam de vigilantes da decência e fecham até eventos que possuem alvará e outras permissões para rolar.
O primeiro show estava previsto para rolar 20h, mas só foi começar lá pras 20:40, o que já desalinha por si só um pouco do cronograma. Janine prende a atenção por uma sonoridade noturna que casa muito bem com o ambiente das ruas do centro, e evoca uma paleta imagética cercada de antecipação frenética, maleada pela voz da artista, que passeia entre o dramático e o sublime de forma teatral, criando a peça perfeita para as gotas que começaram a cair no meio do concerto.
Pois é, vamos falar do elefante na sala logo. O problema da noite não foi nada do que tentei prever. Uma chuva, que nenhuma previsão do tempo chegou perto de sugerir que poderia acontecer, começou a rolar no meio do show da Janine e adicionou um pouco mais de ansiedade às canções. Enquanto a tensão subia, a organização do show tentava cobrir os equipamentos com guarda-chuvas, plásticos e até mesmo camisas do próprio merch da casa, o que permitiu que a primeira atração tocasse até o final de sua duração prevista.
Só que depois dela é que tudo degringolou. A chuva apertou, o público começou a tentar se proteger onde dava, e os caras do Escritório começaram a subir com os equipamentos. A perspectiva naquela hora não era muito boa entre o público. De casa, ou melhor, rua cheia, o pequeno espaço do interior do estúdio, que suporta até 50 pessoas, não seria capaz de colocar aquela quantidade de gente lá dentro, mas essa não é a primeira vez que o Fechamento é interrompido por chuva, o que faz com que ele acabe rolando lá em cima. Mas quando isso acontece, geralmente é insuportável ficar por lá.

Climinha esquisito, todo mundo tentando se proteger, e eu meio que só fiquei na chuva mesmo. Tá no inferno abraça o capeta, etc. Muito “e aí galera, o que vamos fazer?” no meu ouvido, e um sentimento geral de ”deu ruim, vamos embora?” entre a galera que estava ali. Mas eu ia subir se fosse necessário, primeiro porque agora tinha que cobrir esse desastre até o fim, e segundo pois queria MUITO ver a Pretos Novos (@pretosnovosoficial). Nunca escondi por aí que é minha banda favorita de toda cena alternativa do Rio, e eles são de Campo Grande, então é meio difícil fazer shows pelo centro. Na minha cabeça, era um evento histórico, a junção do meu passado na Zona Oeste com a cena que atualmente frequento mais.
Enquanto a galera organizava o espaço lá em cima, algumas pessoas da casa ficavam lá embaixo segurando para que ninguém subisse e complicasse o trabalho. O que é uma situação ruim, pois as pessoas querem ir ao banheiro e se proteger da chuva, mas se faz necessária se o evento quiser continuar. Nessa eu já comecei a me aglomerar ali na porta, pois na hora de subir iria me garantir ao lado do palco.

Só que o inacreditável aconteceu: a chuva foi parando, e logo as pessoas começaram a se perguntar se iriam descer com as coisas de novo para fazer o show lá embaixo. Muitos consideravam esse trabalho um pouco demais para a equipe, e então a perspectiva de que o evento iria de fato acontecer lá em cima foi desanimando as pessoas. Até um amigo meu que estava muito animado para ver a Pretos Novos também foi embora, eu já estava até meio conformado.
Mas o momento da noite, pra mim, foi quando o Gabriel Nunes (@gabriel_umbriel), técnico de som e músico que trabalha na casa, desceu com um megafone e falou que, vendo que a chuva parou, eles estavam pensando em descer com tudo de novo, mas precisariam de colaboração do pessoal para não tumultuar. A reação do público foi tão calorosa que foi exatamente isso que aconteceu, e lá se foi mais um tempo para geral conseguir reorganizar o esquema na rua, e tudo voltar ao normal.

Com isso, o show da Pretos Novos rolou, e é engraçado como essa banda parece meio amaldiçoada a começar a tocar tarde. Uma vez, fui a um festival em Campo Grande vê-los, por exemplo, e o evento que começou no final da tarde, só teve a entrada da banda por volta das 3 da manhã. Mas esse foi, possivelmente, o atraso mais recompensador da carreira deles. Começando por volta da meia noite, foi catártico ver uma banda tão alinhada contagiando o público, quase como uma “victory lap” depois de todo o transtorno da noite. O humor das letras, o groove impecável e o florescer dos arranjos, que ganhou apoio dos teclados do Ramon (@ramonspzz) nessa formação recente, deu um teor de comemoração ao repertório.
Conversei um pouco com o Luan Villanova (@luan.villanova), que ajudou na venda do merch do grupo, e é um mega baixista que eu já vi tocar com eles previamente. Ele disse que era o fã número 1 da banda, e que se eu também achava que eu era, iríamos ter um problema, mas dou uma colher de chá pra ele pois o cara tem um histórico muito maior de apoio à Pretos Novos, com certeza.
Nisso, o Fechamento ainda contava com um público considerável, ainda mais depois de tudo que aconteceu. O frenesi da Kartas (@kartas.kartas.kartas) moveu o público com um ritmo errático e expressivo. As crônicas em spoken word enlaçadas pelo noise e pelo quebra-quebra da banda pareciam ser, também, um bom ditador de mood naquela noite nada convencional e, por certo, causou algumas reações de quem passava pelo evento vindo do Samba da Volta. Ouvi alguém falando que era “coisa de esquisito”, então de fato tudo estava voltando ao seu lugar.

Para coroar a noite, às 3 da manhã, rolou o fechamento do Fechamento com os pratas da casa, o fenômeno da Oruã (@conjuntoorua), que ao final de uma noite que sugou a energia de todo mundo, também ser o som ideal para o momento, já que todas as almas ali presentes estavam entorpecidas pelo momento, então a psicodelia jazzística deles se encaixou perfeitamente. Tocaram até algumas das minhas favoritas, como “Cavalo Branco” e “Vitin”, o que fez valer a pena ficar até o final. Mas sinceramente, nesse final eu já estava comendo um yakisoba superfaturado de uma barraca do lado do evento, e que era tão salgado que provavelmente será a causa de uma eventual hipertensão na minha vida.
O legal mesmo do evento foi acompanhar a jornada do herói que rolou nesse trelelê todo, e ver como os imprevistos só amplificaram a qualidade dos shows. O público perseverou, a galera do Escritório batalhou horrores para tudo acontecer, e isso resultou em um Fechamento histórico, do tipo que sempre será lembrado. Absolutamente tudo pode acontecer na rua, né?

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