Músico independente como ser político: se posicionar é mais importante do que nunca

O mundo artístico é um campo de batalha, então artistas independentes já deveriam estar calejados de guerra quanto à repressão, ao descontentamento com as políticas públicas que os cercam e, principalmente, quanto aos métodos para se mostrar e destacar como cidadãos no cenário público. Existe na prática artística um ímpeto de deixar sua marca no coração das pessoas e, para isso, é necessário desenvolver sua tese enquanto criador bem o suficiente para que elas se importem. Um músico, por exemplo, necessita de um diálogo íntimo com seu ouvinte para que sua música seja de fato ouvida, mesmo que ambos não se conheçam intimamente.
A figura do músico independente é uma peça a se considerar no tabuleiro político, que conversa, ao mesmo tempo, com o subconsciente de seus admiradores e com sua própria subsistência enquanto artista. Por isso, o posicionamento desses artistas nem deveria ser motivo de algum debate para que o seja feito, e sim algo intrínseco ao ofício, principalmente no segundo turno do que é, possivelmente, a eleição mais importante da vida de todos nós. Mas aqui estamos.
“A função do artista é expressar sua visão de mundo, que por si só já é algo intrinsecamente político” – afirmam os integrantes da banda Ouriço
Fomos atrás de alguns artistas que não só se posicionam, mas ativamente fazem alguma movimentação para tornar o debate público dentro da cena mais politizado, algo de importância ímpar em um momento tão frágil da nossa democracia. Entre os que abordamos, três enviaram depoimentos que podem ajudar um pouco nesse debate: Guilherme Vieira, integrante da Sutil Modelo Novo, Julie Yukari, vocalista da Sonho Líquido, e a banda Ouriço.
O Guilherme, por exemplo, é um dos caras que conheço que mais botam a mão na massa quando o assunto é militância em geral. Outro dia, desci correndo para ir ao trabalho, peguei o ônibus e, quando olhei para fora da janela, ele estava lá colando lambe-lambe anti-Bolsonaro num poste, enquanto conversava com uma local que veio questionar seu posicionamento político. Nas suas composições pela Sutil, principalmente as mais novas, existe uma inconformidade quanto ao crescente movimento Bolsonarista, participando e divulgando diversas manifestações que reforçam a importância do voto e da ida às ruas no segundo turno, algo que acredita ser essencial para ganhar a guerra narrativa contra a extrema direita.
“Acredito que o papel do artista, neste sentido, é mostrar que as redes sociais podem tornar as mobilizações concretas (normalmente através de shows, agora o momento pede mobilização política nas ruas). E todo mundo que possui visibilidade ou admiração do público, tem uma grande responsabilidade para tentar influenciar o cenário político e a ideologia de quem está à nossa volta”, afirma o músico sobre o uso das redes como artifício de mobilização.
Para Julie Yukari, existe certa preocupação de que o conteúdo político seja barrado pela Meta e seu algoritmo binário, impedindo um possível diálogo. Mas isso não privou, por exemplo, sua banda de postar um vídeo bem político, que usa uma de suas próprias músicas para ilustrar a situação em que o Brasil se encontra atualmente. Por isso, a artista defende que, apesar de se ter uma visão do público geral de que a música possa ser supérflua, fazer arte independente também é uma labuta, inclusive feita na maioria das vezes por pessoas que tem outros trabalhos fora das bandas, e que faz-se necessária a aproximação desse tipo de vivência para com os trabalhadores através da arte.
A Ouriço, assim como as outras bandas entrevistadas, fez parte de uma grande iniciativa lançada por mais de 40 grupos e artistas no Instagram, o “Manifesto pela Radicalização dos Jovens Brasileiros”, que chama os jovens para a luta e a mobilização nas ruas e espaços culturais. Tal tipo de movimentação é essencial para juntar esforços nessa batalha, segundo os integrantes da Ouriço: “o posicionamento constante e consciente é um sinal de integridade capaz de nos unir dentro da cena musical, uma vez que muitos de nossos direitos se encontram ameaçados pelo avanço da extrema direita na política. Como grupo, nós temos voz, e se temos um microfone em mãos, há também uma grande responsabilidade em relação ao nosso público e aos demais. Nosso papel é incentivar quem nos ouve a se movimentar e lutar pelo futuro, e não deixaremos de cumpri-lo”.
A mobilização, porém, precisa buscar formas de furar a bolha e sair do senso comum dentro do nicho. Guilherme afirma que é essencial nesse movimento “saber quais são as caricaturas que fazem do nosso campo, e fugir delas nesse momento. Depois do dia 25/10, desconstruí-las e mostrar que a rejeição é fruto de estereótipos e preconceitos”.
Já para Julie, é importante encontrar um ponto de equilíbrio e de sinceridade na hora de abordar tais temas nas redes: “Tenho visto slogans, memes, imagens prontas e textos quilométricos, vídeos argumentativos inteligentíssimos, e apesar de achar que são sim formas de linguagem que viralizam nesses momentos polarizados, sinto que a minha linguagem enquanto artista não pode ser dada de forma leviana ou automática.
Ao mesmo tempo, acredito muito na arte como forma de impactar profundamente as pessoas. Saber que temos algum público que é tocado pelas nossas músicas, me diz que através delas podemos e devemos não só nos posicionar, mas também dialogar com tantas pessoas que talvez usem as redes sociais como forma de entretenimento e relaxamento.”
Então, se as redes, alinhadas a um trabalho nas ruas, juntam tanta força para essa luta, por qual motivo ainda existem artistas, sejam eles totalmente independentes ou aqueles que estão na beira do mainstream, que não se posicionam plenamente? Guilherme acredita que pode ser por três motivos: Ignorância, ganância ou covardia. “Omissão no momento em que o voto feminino e a democracia estão em risco é falta de empatia ou de noção da realidade. Se omitir da política nesse momento de ofensiva do imperialismo é traição à pátria.
Minha opinião é que ainda há tempo para se posicionar, e espero que a mobilização pela derrota do candidato miliciano no segundo turno ganhe cada vez mais adesão. A omissão é diferente do apoio aberto, e conquistar os omissos é nossa única esperança de vitória no curto prazo. A principal tarefa de nosso tempo é derrotar o fascismo, nas urnas, nas ruas e nas mentes”, afirma o músico.
A Ouriço já acredita que a omissão faz parte de um egoísmo em relação à conquista de um público mais geral: “Muitos se omitem por medo de perder público, convites de show e oportunidades de expandir seu nome”. Esse pensamento também é compartilhado pela Julie: “Acho triste quando artistas se preocupam somente em alcançar e reter público. Tratando arte como produto e não como forma de expressão. O objetivo passa a ser a fama e não a conexão com quem é, algo que acredito ser muito medíocre. O artista que tem medo de perder público e restringe a própria expressão em prol de captação e retenção de público empobrece a própria arte. A partir do momento que um artista passa a considerar pessoas que se conectam com a sua arte meros números, a conexão humana some, pois desumaniza até os ouvintes que sua arte alcançou”.
Tal pensamento de evitar se posicionar por medo de perder algo me causa certa estranheza, tendo em vista que boa parte da movimentação da cena se encaminha para o mesmo pensamento de lutar contra a extrema direita. O posicionamento, nesse contexto, é muito mais importante para motivar a militância, incentivando ouvintes e entusiastas da música independente a tomar ação, ir às ruas e virar a situação política do país. Como dito pelo manifesto assinado pelas bandas aqui entrevistadas, essa pode ser a última chance da nossa geração para combater a extrema direita, e é imperativo que se use todos os métodos de comunicação disponíveis para isso. Nessa reta final, então, é mais importante ainda, então organize-se e amplie cada vez mais a voz contra o miliciano lá. Se você quiser, né.

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