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NEU! Niterói: tem algo de novo do outro lado da ponte

Foto do escritor: Yuri Neri
Yuri Neri
19 de ago.
13 min de leitura

Atualizado: 31 de ago.

Casa de shows em Icaraí impulsiona a música autoral fluminense, aproxima artistas e público e ajuda a inserir a região no circuito independente nacional


Banda Tem Mas Acabou apresentando-se na NEU!
O nome “NEU!” é inspirado na banda alemã homônima. Inclusive, o logo é bastante parecido (mas não conte pra ninguém). Foto e arte: Yuri Neri

À primeira vista, este prédio semiabandonado da Rua Dr. Carlos Halfeld, 230, em Icaraí, não dá pistas de que abriga um dos principais palcos de uma das cenas artísticas mais efervescentes do país.


Localizado na margem da Baía de Guanabara para onde os holofotes menos costumam apontar, é entre as paredes gastas deste velho edifício que uma nova geração de bandas e artistas ensaia uma mudança no eixo cultural do estado, historicamente protagonizado pela capital, Rio de Janeiro.


Por aqui, nomes como Tem Mas Acabou, Lizium, Yuri e os Terráqueos e Véspera sobem os cinco lances de escada do prédio, empunham suas guitarras e, lá do alto, fazem o som correr na direção contrária da Ponte Rio-Niterói. Múltiplas em timbres e estilos, suas notas afinam-se numa mesma constatação: música fluminense não precisa ser sinônimo de música carioca.


Talvez por isso seja tão apropriado que, em meio aos sinais do passado na construção, a casa de shows que ocupa seu último andar atenda pelo nome de NEU!, ou “novo”, em alemão.


Prédio onde a NEU! ocupa o quinto andar.
NEU!, em tese, fala-se /nói/, mas o que pegou foi /nêu/. Eu, por outro lado, passei muito tempo falando /néu/. A única certeza é o ponto de exclamação! Foto: Yuri Neri

Nascido há cerca de quatro anos, onde inicialmente era estúdio da banda The Lautreamonts, o espaço abriu seu tablado para artistas independentes em um momento em que a música autoral encontrava poucos endereços para fazer barulho deste lado da ponte. De lá para cá, no entanto, as ondas sonoras parecem ter escapado pelas paredes do edifício. Outras casas foram inauguradas — ou reinauguradas — na região, novos projetos musicais tomaram forma e mais gente passou a acompanhar de perto o que se produz por aqui.


Para Eliana Souza, produtora da NEU! e mestranda em Estudos da Subjetividade pela Universidade Federal Fluminense (UFF), há uma espécie de “contágio” por trás dessa efervescência. “Quanto mais coisas acontecendo, mais chance de ter mais coisas acontecendo”, resume.


Paredes da NEU! com pôsteres de bandas que passaram por lá.
Paredes da NEU! guardam pôsteres de shows apresentados na casa. Foto: Yuri Neri

Ela acredita que a casa tenha contribuído para estimular outras iniciativas na cidade, embora rejeite qualquer papel de salvadora da cena. “Acho que o gás que a gente deu na programação em 2025 também pilhou outras pessoas. A gente vai se aquecendo e mostrando que é possível: ‘Olha, os eventos estão rolando, a galera está vindo aqui. De repente, vale a pena vocês abrirem lá também’”, reflete.


Em outras palavras, aos poucos, “novo” deixa de ser apenas o nome de uma casa de shows para se tornar uma boa definição da cena que ganha forma ao redor dela. Nesse movimento, a NEU! tornou-se referência para a música autoral da região, dando às bandas daqui motivos para permanecer deste lado da Baía e às de fora, razões para atravessá-la.


Aprendendo na prática


Ao descer de qualquer ônibus que passe pelo fim da Praia de Icaraí — como o 760 e o 775, para quem vem do Rio, ou o 32 e o 46, para quem parte das Barcas ou do Terminal Rodoviário João Goulart —, bastam alguns quarteirões para chegar à Rua Dr. Carlos Halfeld, localizada entre a Gavião Peixoto e a Lemos Cunha. Encontrar o número 230, no entanto, não é tão simples quanto avistar os algarismos do transporte público.


Não há fachada iluminada ou sequer uma placa com o nome NEU!. O que se vê é um portão largo entre muros grafitados, aberto para um vasto pátio que ainda guarda no cimento as linhas desbotadas de uma pequena quadra. Os vestígios não enganam: antes de amplificadores e baterias ocuparem o último andar, o prédio abrigava uma escola.


NEU! Niterói vista pelo Google Maps.
Antes de abrigar a NEU!, o prédio era do CEJOP, como se pode ler no portão à esquerda. Foto: Yuri Neri

Em um dos portões do espaço, inclusive, ainda se pode ler a sigla “CEJOP”, referente ao Centro Juvenil de Orientação e Pesquisa, instituição educacional que prestava serviços de assistência no endereço. Anos depois, o edifício ganhou vocação cultural com a Babel, que reuniu música, grafite, gastronomia e outras iniciativas, até que, já na década de 2020, o último andar passou a abrigar a NEU!.


De certa forma, contudo, o prédio nunca deixou de ser uma escola. Se antes havia salas de aula, hoje são os eventos e bastidores que ensinam. Tanto que, quando decidiram criar a NEU!, Sandro Faustino e Hudson Barros tampouco tinham uma cartilha de como colocar um espaço musical de pé. O primeiro trabalhava — e ainda trabalha — com informática, mas havia mantido uma loja de instrumentos musicais; o segundo já ocupava uma pequena parte do último andar com um estúdio usado pela sua banda, The Lautreamonts. O que ambos tinham era equipamento e, por sorte, o que faltava para um sobrava para o outro.


“Unimos forças”, resume Sandro. Microfones, bateria e pedestais que ele havia acumulado nos tempos de loja de música encontraram a estrutura que Hudson já mantinha no prédio. A combinação permitiu desenvolver aquele pequeno estúdio para que, no fim de 2022, o espaço estivesse apto a receber seus primeiros eventos, inicialmente voltados à música experimental.


Em 2023, os shows se tornaram mais frequentes, outras bandas chegaram e a NEU! passou também a receber ensaios de grupos de fora daquele núcleo inicial. “Foi caminhando aos poucos. Foi de boca em boca”, lembra Sandro.


Show da banda niteroiense Mototáxi, formada em 2024, no mesmo ano. Vídeo: Caninha Records

Conforme o “boca a boca” aumentava, as paredes começaram a ficar pequenas. Ainda em 2023, Sandro e Hudson decidiram assumir todo o quinto andar. Entre dezembro daquele ano e janeiro de 2024, derrubaram divisórias, instalaram drywall e fizeram tratamento acústico para ampliar a estrutura.


A expansão do espaço coincidiu com a consolidação do público, que começava a reconhecer naquele endereço um ponto de encontro para a música autoral da região. Entre os rostos que se repetiam diante do palco, estavam também os de futuros integrantes das bandas que, pouco depois, passariam a ocupá-lo.


Lena Quadros, vocalista e guitarrista da Tem Mas Acabou, fez justamente esse percurso. Antes de subir ao palco da NEU!, frequentava a casa simplesmente para descobrir o que estava acontecendo por ali. “Nessa época, eu ainda nem tocava direito. Vinha muito aqui pela experiência de ‘não sei o que está rolando hoje, vamos lá na NEU! e a gente vê’”, recorda.


Algum tempo depois, seria a própria banda dela que passaria a ocupar aquele tablado. A Tem Mas Acabou começou a fazer shows entre 2023 e 2024 e encontrou na NEU! uma estrutura bem diferente de alguns dos primeiros endereços por onde havia passado. “A gente tocou em cada ‘buraco de rato’ que Deus duvida. Às vezes não tinha amplificador ou o microfone era ruim. Quando a gente tocou aqui, foi surpreendente: ‘Caraca, eu tô me ouvindo’”, brinca.


Lizium durante o festival João Rock 2026.
De Niterói para o mundo, a Lizium foi a grande vencedora do concurso nacional João Rock 2026. Foto: Reprodução do Instagram da @_lizium/@levini.24

A qualidade da estrutura também transforma o palco em laboratório. João “Cabelo”, baixista da Lizium, observa que se apresentar em um espaço onde os músicos conseguem se ouvir obriga uma banda iniciante a prestar atenção em aspectos que lugares mais precários muitas vezes escondem, como timbre, afinação, arranjo e domínio dos próprios equipamentos. “Quando você tem uma casa com uma qualidade de som boa, isso exige mais da sua técnica, dos seus arranjos e do seu conhecimento”, explica.


Para ele, há ainda uma vantagem pouco comum: o mesmo endereço serve para ensaiar e para apresentar o resultado ao público. Isso permite que grupos iniciantes conheçam previamente a estrutura e planejem com mais cuidado o próprio show. Dessa forma, na visão do músico, cada apresentação vira oportunidade de voltar para casa sabendo o que funcionou — e, principalmente, o que ainda precisa melhorar.


O aprendizado não acontece apenas diante do amplificador. Os irmãos Igor e Victor Barbosa, da banda Véspera, começaram a frequentar a NEU! por volta de 2023, quando procuravam um lugar para ensaiar depois que os integrantes, originalmente de São Gonçalo, começaram a se mudar para Niterói. Desde então, estimam ter tocado ali ao menos sete vezes.


Victor define a casa como um espaço de comunidade, em que bandas acompanham umas às outras e fazem com que encontros ocasionais virem amizades, convites e novos projetos. “É um lugar onde as pessoas se encontram, trocam ideias e se ajudam como for possível nesse rolê underground”, resume.


Show da Véspera na NEU! para lançar o disco "Nada será como antes". Vídeo: Caninha Records

Para Yuri Terra, frontman da Yuri e os Terráqueos, a NEU! foi inaugurada em um período de pouca atividade musical na cidade e ajudou a alterar esse cenário. “Ela chegou num momento em que a cidade estava bem devagar, então acho que reacendeu um pouco a chama das bandas e também inspirou outros lugares a aparecerem", afirma.


A possibilidade de encontrar música autoral mais perto de casa — sem precisar se deslocar até o Rio de Janeiro — também mudou a relação de artistas e público com a própria cidade. “Às vezes, a gente precisa fazer um deslocamento imenso para conseguir assistir a um show à noite”, observa Lena Quadros. A distância vem acompanhada do custo da viagem e da incerteza da volta, especialmente depois que o transporte público rareia. Ter esses shows deste lado da ponte, para ela, ajuda a inverter essa lógica e “faz a cidade respirar”.


E parte desse respiro pode ser percebida na renovação de quem ocupa as plateias. Morador de São Gonçalo, o desenvolvedor de softwares Daniel Luís acompanha a música independente da região desde a adolescência, quando tocava baixo em uma banda com o irmão. Aos 30 anos, diz reconhecer nos rostos cada vez mais jovens dos shows o início de mais um ciclo geracional.


“Vejo em muitos shows uma galera bem nova, com uns 18, às vezes até menos de 18 anos. Eles também querem se expressar, querem fazer música, querem montar banda. Sinto que essa geração nova está vindo com muita força”, observa.


Tem Mas Acabou interpreta o hit Minhoca na NEU!. Vídeo: Yuri Neri


Além disso, para Daniel, espaços como a NEU! ajudam a encurtar a distância entre assistir e fazer. Ao acompanhar de perto apresentações organizadas pelas próprias bandas, o público também passa a enxergar caminhos para produzir seus eventos e projetos. “A galera vai ver o show e entende que pode produzir aquilo também. Não precisa dar sorte de conhecer alguém. O caminho está ali”, conta.


E os caminhos abertos ao redor da casa também atravessam a Baía. Se por muito tempo o fluxo mais comum levou niteroienses e gonçalenses em direção aos palcos cariocas, a NEU! começa a dar ao público do Rio motivos para percorrer a ponte no sentido contrário.


Sutil Modelo Novo, banda da capital Rio de Janeiro, durante show na NEU!. Reprodução: canal fotoggers no YouTube

A fotógrafa Hanah Beatriz, moradora do Centro do Rio e frequentadora assídua do circuito independente fluminense, é uma das pessoas que passaram a cruzar a Baía para acompanhar o que acontece por aqui. Antes de conhecer a NEU!, conta que havia ido poucas vezes a Niterói e quase sempre permanecido nos arredores da UFF. Desde então, já esteve na casa quatro ou cinco vezes e, entre os artistas que conheceu por lá, está justamente a banda Véspera.


“É uma troca muito grande ir para Niterói, conhecer a galera de lá e saber que eles não precisam mais se despencar para o Rio. Agora têm acesso a bandas que antigamente tocavam só aqui”, afirma.


A inversão do trajeto, contudo, esbarra em um velho problema que a cena musical ainda não conseguiu resolver: o transporte público durante a madrugada. Como os shows costumam terminar por volta da meia-noite, quem vem do Rio já não encontra as barcas funcionando e passa a depender do transporte por aplicativo para voltar para casa. Para quem mora em Niterói ou São Gonçalo, a dificuldade também existe, embora as distâncias menores tornem mais viável dividir uma corrida entre amigos.


Hanah conhece bem essa conta. Para chegar à NEU!, costuma combinar barca e ônibus, mas, na volta, geralmente recorre ao Uber. “O transporte público dificulta pra caramba para voltar”, desabafa. A fotógrafa chega a se planejar com semanas de antecedência para separar o dinheiro necessário para a noite.


A próxima parada é Niterói


Nem todos os caminhos que hoje chegam a Niterói começam ao redor da Baía de Guanabara. A NEU! também tem ajudado a inserir a cidade nas rotas da música independente nacional, fazendo do quinto andar da Rua Dr. Carlos Halfeld, 230, ponto de encontro entre artistas locais e projetos que circulam por diferentes estados do país.


Em entrevista ao documentário “Do Convés ao NEU! Um retrato da cena musical independente de Niterói”, o fundador do espaço, Hudson Barros, explica que uma das propostas da casa é justamente “inserir Niterói no circuito” e aproveitar cada passagem para aproximar quem vem de fora de quem produz música na região. A lógica é simples: trazer esses percursos para dentro da cidade para que, mais tarde, artistas daqui também possam percorrê-los.




Documentário "Do Convés ao NEU! Um retrato da cena musical independente de Niterói". Reprodução: canal Acende a Luta no YouTube.

Produzido por estudantes de Estudos de Mídia da UFF no âmbito do projeto de extensão Acende a Luta!, o documentário parte da história do extinto Convés, importante espaço cultural ligado à região da Cantareira, para chegar à NEU! e investigar como a música independente encontrou novos endereços na cidade.


A escolha de terminar essa viagem na NEU! foi também uma maneira de evitar que o filme olhasse para a música independente niteroiense apenas pelo retrovisor. “A gente não queria fazer uma parada que retratasse só o passado de uma forma nostálgica, como se hoje não tivesse rolando nada”, explica Eduardo Pitombo, estudante de Estudos de Mídia e um dos realizadores do documentário.


Varanda, de Minas Gerais, é uma das bandas que adotaram Niterói em suas turnês. Vídeo: Yuri Neri

Nesse novo capítulo, Niterói também deixou de conversar apenas com as cidades ao seu redor e passou a cruzar caminhos com cenas independentes de outras partes do país. Bandas como Varanda, Tangolo Mangos, Exclusive Os Cabides, Jovens Ateus e Eliminadorzinho estão entre os nomes de fora do Rio de Janeiro que viajaram ao tablado da NEU!, sempre dividindo a noite com projetos locais.


Em agosto deste ano, uma dessas rotas começou a mais de 2 mil quilômetros do pátio da NEU!. A cantora Flau Flau trouxe de João Pessoa, na Paraíba, suas canções para dividir uma noite com a Tem Mas Acabou.


A princípio, porém, não era a música que motivava a viagem. A artista veio a Niterói para participar da reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e enxergou no compromisso acadêmico uma oportunidade de fazer também seu trabalho circular. “Eu pensei: já que eu vou para o Rio, vou tentar fazer uma circulação musical”, conta. Embora já conhecesse bem o Sudeste — chegou, inclusive, a morar no Rio de Janeiro —, seria a primeira vez que se apresentaria musicalmente na região.


O caminho da cantora até Niterói, inclusive, já vinha sendo pavimentado pela Internet. Flau Flau e os integrantes da Tem Mas Acabou conheciam o trabalho uns dos outros e haviam estreitado a relação pelas redes sociais — especialmente por um grupo de WhatsApp que reúne músicos de diferentes partes do país.


Trechinho do show de Flau Flau em Niterói. Vídeo: Juliana de Carvalho

Sem conseguir trazer os outros quatro integrantes de sua banda, Flau Flau cruzou o território brasileiro apenas com a guitarra e apresentou na NEU! um formato que nunca havia experimentado ao vivo. Se o palco e o arranjo minimalista eram novos para ela, algumas de suas músicas já não eram novidade para quem estava na plateia. “Tinha uma menina que estava cantando todas as músicas. Eu pensei: ‘Caralho, pô. As pessoas pareceram genuinamente gostar!’”, lembra, surpresa.


O preço do novo


Se, diante do palco, a impressão é de uma cena que se expande, nos bastidores é preciso fazer malabarismo para que as contas acompanhem o mesmo ritmo. Aluguel, manutenção da estrutura, equipamentos, equipe e cachês precisam caber numa receita que muda a cada noite — e depende diretamente de quantas pessoas decidem subir aqueles cinco lances de escada.


Nem mesmo um calendário cheio é garantia de que a conta feche. Em 2025, a NEU! realizou 49 eventos, recebeu mais de 150 artistas e levou cerca de 1.800 pessoas ao quinto andar da Rua Dr. Carlos Halfeld, 230. Ainda assim, a casa terminou o ano sem lucro.



Eliana Souza, responsável pela produção e por boa parte da comunicação com artistas, explica que o dinheiro arrecadado em uma noite ajuda a manter a seguinte. Nos eventos realizados em parceria, uma parcela da bilheteria é destinada primeiro aos custos da casa e da equipe, enquanto o restante é dividido com os artistas. Mesmo assim, segundo ela, “na maior parte dos eventos, na maior parte do ano, a NEU! não tem nenhum lucro”. Em outras palavras, quando determinado mês deixa alguma sobra, o valor provavelmente será consumido pelas despesas do próximo.


A casa tem uma equipe fixa que cabe em poucos nomes. Hoje, Eliana divide o núcleo da operação principalmente com o cofundador Sandro e o produtor Bento Avellar. Até pouco tempo, o cofundador Hudson Barros também fazia parte desse cotidiano, mas se afastou da operação após se mudar para São Paulo. Eliana acompanha a produção e os horários; Sandro assume a parte sonora técnica e as passagens de som; e Bento, além de cuidar do bar e das peças gráficas, transita entre diferentes funções e chega a substituir Sandro na técnica quando necessário.


Outras pessoas são convocadas de acordo com cada evento e com o que a casa consegue pagar para cuidar da recepção ou, eventualmente, substituir alguém. Segundo Eliana, o aprendizado cobra seu preço. “Falta gente, falta dinheiro para a gente conseguir fazer as coisas que a gente quer”, desabafa.


Um manequim com cabeça de cavalo, que fica na última escadaria da NEU!.
O manequim com cabeça de cavalo que vigia as escadas da NEU! — e cuja existência nenhum dos membros da equipe parece saber explicar. Foto: Juliana de Carvalho

Na contabilidade da NEU!, contudo, há pelo menos um combustível que não aparece entre as receitas: é o que Sandro Faustino define como a “cachaça”. Para explicar o termo, ele compara a casa àquele compromisso que alguém mantém simplesmente porque não consegue abrir mão. “Tem aquele cara que, religiosamente uma vez por semana, vai encontrar os amigos para jogar futebol. A cachaça do cara é aquela. Isso aqui, para mim, é cachaça”, brinca.


No fundo, a tal cachaça tem outro nome: amor pela música. É ela que faz Sandro trocar horas livres pelo trabalho no quinto andar mesmo sem depender financeiramente da casa — sua principal ocupação, afinal, continua sendo na área de informática. Mas uma cena cultural não deveria depender apenas da paixão de quem aceita mantê-la de pé.


Com políticas públicas de fomento, editais regulares e outras formas de financiamento à cultura independente, esse amor poderia pesar menos no bolso e na rotina de quem o transforma em trabalho. Afinal, se espaços como a NEU! ajudam a formar artistas, público e produtores, movimentam a economia da cultura e colocam Niterói no circuito da música autoral, mantê-los abertos não precisa ser apenas a “cachaça” de quem está disposto a bancar a insistência.


Se, mesmo com poucos espaços, equipes reduzidas e dinheiro contado, uma nova leva de bandas tem conseguido surgir e encontrar público em Niterói, resta-nos imaginar o que poderia acontecer se fazer cultura na cidade dependesse de um pouco menos de insistência.


Deste lado da ponte, bons artistas, afinal, não são raros. “Às vezes, conversando com uma parcela mais conservadora do rolê, o pessoal fala: ‘Hoje em dia não tem mais música boa acontecendo, ninguém faz mais nada’. Será?”, provoca Lena Quadros. “Na verdade, a gente precisa que os espaços viabilizem esse tipo de coisa. Dá trabalho fazer um show, é custoso, envolve uma logística imensa”, conta.


Se ainda faltam dinheiro, braços e espaços para que essa cena cresça, música não parece faltar. No quinto andar da Rua Dr. Carlos Halfeld, 230, as condições adversas não impedem que o novo aconteça. Ainda bem!

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