Escritório Transfusão: a pequena sala que se tornou base da música alternativa carioca
Atualizado: 14 de ago.
Há mais de uma década, espaço no Centro do Rio reúne ensaios, gravações, shows e encontros que ajudaram a moldar a cena independente brasileira

No centro do Rio de Janeiro, entre o Campo de Santana e a Praça Tiradentes, os trilhos do VLT Carioca dividem espaço com guitarras distorcidas, amplificadores e pedais cuidadosamente posicionados na calçada, quase como se os limites entre palco e cidade deixassem de existir. Quando o bonde se aproxima, o aviso sonoro se mistura aos gritos do público, que ocupa a Rua da Constituição na festa mais democrática do cenário musical fluminense: o Fechamento.
A celebração transforma uma paisagem frequentemente associada ao abandono urbano, típico de regiões centrais das metrópoles brasileiras, em um território de convivência e experimentação artística, onde bandas, vendedores ambulantes e amantes da música alternativa de várias partes do Rio se encontram no mesmo pedaço de rua.
O fenômeno é organizado pelo Escritório Transfusão — ou simplesmente Escritório, para os íntimos —, uma sala de poucos metros quadrados localizada no número 64, diante da qual o Fechamento acontece. Apesar do nome, não espere encontrar advogados, contadores ou executivos. O expediente ali é conduzido por músicos, produtores e artistas responsáveis por algumas das obras mais influentes da cena independente brasileira.
Ao longo dos últimos anos, a estrutura se consolidou como um dos principais polos da música alternativa carioca, recebendo atrações de diferentes estados e países. Mais do que uma casa de shows, entretanto, ela funciona simultaneamente como sala de ensaio, estúdio de gravação, sede de selo musical, ponto de encontro e centro de operações para diferentes artistas.
A história do Escritório começou em 2013, quando o músico e produtor Lê Almeida — natural de Jardim Paraíso, em Nova Iguaçu, e hoje frontman da banda Oruã — procurava um local onde pudesse ensaiar, gravar e reunir amigos sem depender da logística tradicional da indústria musical. Além de um espaço próprio, ele buscava um endereço central, capaz de conectar músicos vindos da Baixada Fluminense, das zonas Norte, Oeste e Sul, do outro lado da Baía de Guanabara e de outras regiões do estado.
"O objetivo era criarmos o nosso próprio espaço, nosso próprio lar, para fazer o nosso som e organizar uns eventos", lembra Almeida. "Na Baixada, não tinha muitas opções de lugares como esse. O Escritório passou a ser um espaço onde pessoas de várias regiões do Rio conseguem habitar, justamente por estar no Centro da cidade”, acrescentou.

Desde o início, o Escritório é mantido coletivamente. O grupo original reunia sete sócios — todos amigos de Almeida e ligados a bandas da cena independente — e a composição mudou ao longo dos anos, conforme novos músicos passaram a frequentar e assumir responsabilidades na casa.
A logística é simples: o dinheiro arrecadado com eventos, ensaios e gravações retorna para o próprio local, permitindo que ele continue existindo. Não é raro, inclusive, que um dos sócios passe por lá mesmo sem compromisso profissional marcado, apenas para encontrar amigos, tomar um café, guardar equipamentos ou até resolver pendências pela região central da cidade.
Por isso, durante a entrevista, anotei a palavra "hub" para definir o Escritório. Parecia adequada para um espaço que reúne ensaios, gravações, shows, lançamentos e encontros. Risquei-a, porém, quando Almeida utilizou o termo “base”. A língua de Camões sempre encontra termos que o inglês não consegue melhorar, não? Base é exatamente o que o Escritório se tornou — não apenas para os sócios que mantêm o local em funcionamento mesmo sem lucros, mas para boa parte da música alternativa produzida no Rio de Janeiro.
Democracia sonora na Rua da Constituição
Saindo da estação Saara do VLT, caminhe 160 metros na direção sul do Campo de Santana e dobre à esquerda na Rua da Constituição. Em dias de Fechamento, a aglomeração de músicos, fãs e ambulantes faz com que seja impossível não achar o destino. Nos demais dias, uma porta estreita, que leva a uma escada igualmente estreita, é o destino. No alto dela está o Escritório.

Assim como a entrada, a sala principal não impressiona pelas dimensões, ocupando pouco mais do que o espaço de um quarto de filho mais novo. É ali que acontecem ensaios, gravações, audições, reuniões e boa parte das conversas que ajudam a traçar a história da nova música fluminense. Quando os eventos crescem, especialmente durante o Fechamento, os equipamentos descem as escadas e ocupam a calçada.
É difícil entrar no Escritório sem deixar os olhos vagarem pelas paredes. Adesivos, cartazes, capas de disco e outras artes disputam cada centímetro com instrumentos e equipamentos sonoros. No banheiro, o espelho quase desaparece sob camadas de colagens e intervenções gráficas.
Talvez maximalista para alguns, a decoração funciona como um arquivo vivo da cena que passou por ali desde 2013. Ao longo dos anos, a sala e a rua receberam apresentações de artistas como Boogarins, Ana Frango Elétrico, Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Caxtrinho, CRIZIN DA Z.O. e muitos outros nomes da música independente brasileira.
Entre as dezenas de ilustrações que revestem o Escritório, porém, um nome aparece repetidamente: o selo Transfusão Noise Records. Não é por acaso — a história do primeiro é inseparável da história do segundo.
Fundada por Lê Almeida em 2004, a Transfusão nasceu para reunir bandas amigas da Baixada Fluminense e lançar discos produzidos à margem da indústria musical tradicional. Durante quase uma década, sua sede foi o próprio quarto de Almeida em Jardim Paraíso, carinhosamente apelidado de “Interestellar Lo-Fi”.
No início dos anos 2010, Almeida dividia sua rotina entre as tarefas do selo e o trabalho ao lado do pai, que consertava malas e mochilas na Praça Tiradentes. Nas horas vagas, caminhava pelo Centro observando os prédios do entorno até que, em uma dessas andanças, encontrou o endereço que mudaria sua vida. "Foi nessa época que eu saquei o prédio do Escritório. Nós fizemos uma festa lá uma vez, eu toquei e fiquei interessado em ‘desvendar ele’", recorda.

Depois que começou a alugar a sala, Almeida deixou de gravar os discos da Transfusão em seu quarto, mas o espírito “do it yourself” — ou, para evitar mais uma expressão em inglês, o bom e velho "faça você mesmo" — permaneceu intacto. Isso porque garantir que bandas tivessem onde ensaiar, gravar, tocar e se encontrar sempre foi mais importante do que alcançar os padrões técnicos de grandes estúdios ou casas de show. A estrutura cresceu com o tempo, mas nunca foi a condição para que os projetos existissem.
Essa filosofia do Escritório encontrou terreno fértil na mente de João Autuori, natural de Realengo e, atualmente, vocalista e guitarrista da banda Glote. Em 2015, ao visitar o espaço pela primeira vez, percebeu que não era preciso uma grande estrutura para organizar shows.
"Eu fui lá no Escritório em um evento e vi que era possível, com pouco equipamento, fazer isso dentro da minha casa. Lá em Realengo, a gente tinha muita dificuldade de encontrar espaços para bandas autorais. Então eu percebi que, com um par de caixas, um amplificador e uma bateria, dava para fazer acontecer", lembra.
Inspirado pela experiência, Autuori criou o Minha Casa Sessions, iniciativa que promoveu shows e ajudou a movimentar a cena autoral da Zona Oeste por vários anos. "Eu senti uma necessidade de desenvolver um ponto cultural onde essas pessoas pudessem circular, se inspirar e formar suas bandas", afirma.
Anos depois, ao fim da pandemia, ele foi convidado por Almeida para integrar a equipe responsável pela administração do Escritório. Primeiro como produtor e, mais tarde, como um dos sócios da casa.
A rotina dos sócios inclui desde a produção de eventos até tarefas mais cotidianas, como atender artistas, organizar ensaios, operar o bar ou resolver problemas de infraestrutura. Nenhuma dessas atribuições, contudo, parece explicar sozinha o vínculo que mantém com o espaço.
"A gente literalmente faz tudo ali. Desde o bar e a portaria até marcar show para bandas e fazer cartaz. Porque o Escritório não é sobre lucro, é sobre resistência. É uma escola, é um ambiente onde a gente pode explorar a nossa liberdade artística", reflete Autuori, que integrou, entre 2021 e 2026, a sociedade do Escritório.
Em família
"O Escritório é um espaço único pra mim. Eu não vejo outro igual no Brasil”. A afirmação de Lê Almeida não se refere apenas à estrutura multiuso do lugar ou ao fato de um VLT atravessar os shows do Fechamento. Na verdade, grande parte dessa singularidade está na relação que o espaço construiu entre artistas e público ao longo dos anos.
Em uma época de palcos cada vez mais rockinriozados, telões gigantes e artistas que se metamorfoseiam em um pontinho observado à distância por multidões, o Escritório preserva outra escala. Ali, a música permanece inseparável das pessoas que a fazem. Quem se apresenta costuma estar no bar minutos antes do show, conversa com o público durante os intervalos e permanece pela casa depois da apresentação. A fronteira entre plateia e artista até existe, mas raramente permanece intacta por muito tempo.
Petterson “Rato” Paulo, estudante de Ciências Sociais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e frequentador do Escritório desde 2024, acredita que essa proximidade é uma das principais diferenças entre acompanhar bandas da cena alternativa e consumir artistas mais conhecidos.
"Eu gosto muito da facilidade que você tem em se aproximar do artista de que você gosta. Quando você anda nesse meio mais underground, consegue fazer amizades com pessoas que fazem o que você está ouvindo", relata.
Ou até desenvolver laços familiares. Durante a audição do novo álbum da banda soteropolitana Tangolo Mangos, realizada no Escritório, Rato mencionou casualmente que era primo de Felipe Vaqueiro, vocalista do grupo. A informação pareceu plausível por alguns minutos, até porque ele nitidamente era íntimo de todos os músicos.
Quando entrevistei Vaqueiro ao fim da audição, ele retificou que Rato não era seu primo, mas apenas seu "primo". Era uma piada recorrente entre a banda e um dos seus maiores fãs, que acabou se tornando uma ótima metáfora para o senso de comunidade construído pelo Escritório. Depois de algum tempo ali, torna-se difícil distinguir quem é amigo, quem é músico, quem é público, quem se conhece há anos e quem chegou naquela noite. Todos ocupam o mesmo palco.
"Ao mesmo tempo que o Escritório consegue respeitar o lugar sagrado que é o palco, dessacraliza essa coisa do artista enquanto uma figura inacessível. Acho isso foda demais", comenta Vaqueiro.
Vindas de um músico soteropolitano que percorreu mais de mil quilômetros até o Centro do Rio, as palavras soam menos como gentileza de visitante e mais como o reconhecimento de alguém acostumado a circular por diferentes cenas musicais.
"O Escritório é um lugar de criação irreverente, pulsante, que tá fazendo e foda-se: vai continuar fazendo, apesar das dificuldades. É quase anárquico, mas existe também uma dimensão coletivista e organizada. O trabalho deles é muito sólido e muito foda, seja na produção fonográfica, seja como espaço para gravar, assistir a shows e fazer a cena acontecer”, diz.
O paradoxo do abandono
O sucesso do Fechamento talvez esteja ligado à mesma condição que ameaça sua existência: o abandono do Centro do Rio.
Quando os shows terminam e os equipamentos voltam para dentro do Escritório, a Rua da Constituição retoma seu cenário habitual, marcado por lojas fechadas — que só trazem movimento durante o dia —, pouca circulação de pessoas e escassa presença residencial.
De certa forma, é justamente essa combinação que permite que centenas de fãs ocupem a via durante a noite sem provocar os conflitos comuns em áreas mais densamente habitadas. Almeida reconhece a contradição.
"Ali é um lugar meio abandonado, então a gente ocupa ele e transforma num lugar cultural. Mas talvez o Fechamento só consiga existir porque é uma parte esquecida da cidade. E, com o sucesso do Fechamento, se aquilo virar uma parada maior, de repente não dê mais para fazer ali”, reflete.
O mesmo Centro que permitiu o surgimento do Fechamento também impôs desafios ao longo dos anos. Incêndios em prédios vizinhos, disputas pelo uso da rua, denúncias ocasionais e abordagens do poder público fazem parte da história da casa tanto quanto os shows e gravações.
Em 2021, por exemplo, uma operação da Guarda Municipal interrompeu um Fechamento e apreendeu equipamentos. Vídeos da ação circularam pelas redes sociais e geraram repercussão suficiente para que representantes da prefeitura procurassem os organizadores posteriormente. O episódio não impediu a continuidade do evento, mas evidenciou a situação peculiar ocupada pelo Escritório.
Já em 2024, um incêndio em um imóvel vizinho mobilizou frequentadores e organizadores, que temeram perder o Escritório. Embora o fogo não tenha atingido diretamente o espaço, a água utilizada pelos bombeiros danificou parte da estrutura e dos equipamentos. A recuperação foi viabilizada por uma campanha de arrecadação que mobilizou a própria comunidade construída em torno da casa.
Esses episódios não são isolados. Ao longo dos anos, o Escritório também enfrentou conflitos ocasionais relacionados à ocupação da rua e à realização dos eventos, obstáculos que ajudam a explicar por que a permanência do espaço é vista por muitos frequentadores quase como um ato contínuo de resistência.
Além disso, financeiramente, apesar da relevância conquistada ao longo dos anos, o Escritório ainda opera sob uma lógica de sobrevivência. A estrutura já recebeu apoio pontual por meio de editais — especialmente durante a pandemia, quando um projeto contemplado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro ajudou a manter as atividades — e também chegou a estabelecer uma parceria com a Budweiser. Ainda assim, a maior parte dos recursos continua sendo reinvestida no próprio local.
O fato é que o poder público e a iniciativa privada parecem ignorar uma das experiências culturais mais singulares do Rio de Janeiro contemporâneo. Em uma época em que empresas e instituições investem fortunas para associar suas marcas a ideias de comunidade, diversidade e transformação social, poucas iniciativas conseguem apresentar resultados tão tangíveis quanto esta salinha entre o Campo de Santana e a Praça Tiradentes, capaz de transformar uma rua esquecida em ponto de encontro para centenas de pessoas.
Almeida sonha em ver o Escritório reconhecido como ponto de cultura. Também imagina versões ampliadas do Fechamento, ocupando outros espaços da cidade sem abandonar o espírito do evento.
"Eu sinceramente boto uma pilha na galera de a gente manter o Escritório, mas criar um espaço novo, maior. O mesmo tipo de visão que eu tive lá atrás, de alugar um lugar no Centro e fazer isso acontecer, agora eu tenho de alugar um lugar maior", projeta.
O endereço pode mudar, a sala pode crescer e o Fechamento pode chegar a outras ruas, mas a ideia que levou Almeida a subir aquelas escadas pela primeira vez permanece a mesma: encontrar um lugar e fazer acontecer. Há mais de uma década, o expediente no Escritório segue sem hora para acabar.


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