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Camisas, pôsteres e lucro: dá para sustentar carreira musical com dinheiro de merch?

  • Foto do escritor: Victor Silveira
    Victor Silveira
  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

Ser músico, ainda mais independente, é lidar com um paradoxo tragicômico que envolve gravar, fazer shows e se mostrar pro público: tudo isso é caro, e artista ganha muito pouco para o que faz. Quer tocar numa casa de show que atinja o nicho esperado? Tem que pensar nos ensaios antes do evento, no transporte de instrumentos, nos custos de produção, na divulgação e outros 7390 problemas que podem surgir nessa iniciativa. Quer construir seu nome e chamar público? Vai precisar gravar as músicas, planejar o lançamento delas, fazer show para 5 pessoas em locais inóspitos, implorar para que amigos e parentes de bom coração ajudem tanto na bilheteria, quanto ouvindo suas músicas e o que você tem para dizer.


Tudo isso tem que se financiar, de algum jeito. Existem alguns meios, mas ninguém entra no mundo da música sabendo de todos os atalhos para tornar a carreira na música viável. Para responder as dúvidas e facilitar os métodos, criamos a série de reportagens Sobrevivendo Independente. A ideia é falar com pessoas envolvidas na cena, como músicos, produtores culturais e designers, para saber como estes lidam com os percalços de fazer acontecer, e de que modo eles estruturam suas formas de ganhar dinheiro e conseguem se pagar.


Uma das formas mais diretas de tirar algum dinheiro da vida de músico é vendendo merchandising, ou merch para os mais íntimos. Camisas, pôsteres, adesivos e outros produtos do tipo que, geralmente, ficam numa banquinha na área comum das casas de show, e cumprem algumas funções importantes no ecossistema musical, principalmente para entrar dinheiro no caixa. Ele também é uma forma de chamar atenção, quase como uma publicidade para o artista. Alguém bate o olho num adesivo ou camisa, e pode acabar indo atrás de saber mais sobre os músicos.


Por isso, todas as peças têm que ser pensadas com uma estética que case com a proposta do grupo, e fazer com que tudo saia do jeito certo demanda trabalho e investimento que deve ser bem planejado. Entender o custo de produção, o visual desejado, os modos de fazer esses produtos se materializarem e os preços da distribuição são alguns dos passos para que essa máquina do merch se sustente.


Opções de venda de merch


Duas das bandas cariocas que produzem bastante merch são a Drogma e a Sutil Modelo Novo, com ideias de produtos que são menos usuais nesse tipo de rolé. Alvaro Mendes, da Drogma, me contou que, religiosamente, fornece colagens, camisas, adesivos e fitas-cassete nos eventos, enquanto a galera da Sutil conta com pôsteres, CDs, zines, adesivos e blusas.


Se você é um artista que ataca em várias frentes, pensar sua própria estampa de camisa ou arte de adesivo pode ser um exercício de estender a estética pensada para além da música, como é o caso do Alvaro: “Todos os designs de estampa de camisa da Drogma eu que criei, tudo na base da colagem manual, criando uma diagramação muitas das vezes manual também. Transformo as colagens numa tela para depois virarem camisas”.


Camisa que faz parte do merch da Drogma - Modelo: Ramon Antunes
Camisa que faz parte do merch da Drogma - Modelo: Ramon Antunes

A colagem é a estética mais usada pela galera do Escritório Transfusão, casa de shows da qual Alvaro faz parte, e isso se reflete também no visual que ele pensa para banda, e ele conta que é uma linguagem que conversa muito com o que o grupo faz. Nesse sentido, existe uma coesão estética que cobre todas as bases da Drogma, mas muitas vezes esse tipo de confecção é feita a muitas mãos, como é o caso da Sutil Modelo Novo, que contou com diversos artistas para criar suas peças:


– A primeira camiseta que fizemos foi com a Luíza (@kropolu), a segunda foi a Lara Miranda(@laramirand.a). A zine eu fiz junto com a Julia Kürten (@kurirro), as artes do EP novo e os adesivos dele fizemos com o Juan Veloso (@porjuanv). Muita coisa nós mesmos fizemos, por exemplo, o Pôster, o Theo que fez. – conta Guilherme Vieira, integrante da Sutil Modelo Novo.


Julia Kürten, que é designer, artista visual, co-fundadora do coletivo Trave e que já criou artes para diversos artistas fluminenses, contou um pouco de como é esse processo de criação. Segundo ela, os clientes já chegam com uma boa noção de como é o trabalho dela, e deixam o processo criativo mais livre: “Nunca tive problemas para concluir essas artes, pois de certa forma, o artista quer saber minha percepção do trabalho dele. Então, eu estou interpretando esse original, e a partir da minha interpretação ele vira uma coisa maior, é uma junção de coisas”.


Porém, para fazer essa parte de design fora da banda, é necessário (ou pelo menos moralmente correto) pagar a galera que vai fazer o trabalho. Guilherme disse também que as blusas, por exemplo, eles costumam a dividir os lucros a 70/30, ou seja, 30% do preço de venda vai para os designers, mas também o grupo não ganha tanto dinheiro a ponto de poder brincar tanto assim, sendo muitas das vezes só o suficiente para manter a banda de pé: “É um salto de um ponto de desequilíbrio até outro ponto de desequilíbrio, e esse é o jeito que a gente vai desenvolvendo as coisas”, relatou.


Qual é o preço certo para vender merch?


A precificação desses produtos é o ponto chave para pensar a própria produção desses produtos. Para Júlia, o básico do básico é você saber quanto é o custo da sua produção, e construir uma tabela de preços a partir disso. Esses artigos precisam se pagar, minimamente, e para isso é preciso entender quanto se gasta fazendo-os.


A ideia da galera da Sutil e da Drogma é parecida, reduzir os gastos para poder tirar um pouco mais dessas vendas. “A gente sempre tenta baratear o máximo possível. Pegar o contato de um lugar que faz uma tela, e aí você compra a sua própria tinta, a camisa e faz tudo para ir barateando, pois cada pouquinho de dinheiro faz toda a diferença”, contou Alvaro. Inclusive, uma das estratégias do Guilherme é garimpar camisas lisas no brechó, reduzindo não só o custo das camisas, como também até achando malhas de melhor qualidade do que as que são disponibilizadas por fornecedores, e então estampá-las por conta própria.


Para o Alvaro, a produção também deve ser pensada a partir do público alvo pretendido: “Não tem como botar um preço muito elevado também, por que a gente entende como funciona nosso público, então as vezes não vale a pena para gente fazer um investimento tão alto, com algo muito caro e sair e não ter retorno nenhum”.


O retorno financeiro para as bandas entrevistadas é só o suficiente para reinvestir na própria banda, conta Pedro Nigro, da Sutil Modelo Novo: “Basicamente nós investimos no merch para poder voltar com esse dinheiro para Sutil Modelo Novo e investir mais ainda, fazer a parada ficar cada vez melhor”. Mais merch vendida, mais dinheiro para fazer mais merch e continuar alimentando o ciclo.


Banquinha de Merch da Drogma / Pós Skate / Tem Mas Acabou em SP - Foto: Mateus Habib
Banquinha de Merch da Drogma / Pós Skate / Tem Mas Acabou em SP - Foto: Mateus Habib

O Alvaro, por exemplo, faz geralmente um planejamento de merch para vender o suficiente para sustentar viagens da banda para outros estados: “Quando a banda viajou ano passado, a gente tinha uma data certa e uns shows no Rio antes desse evento, nos quais poderíamos investir na criação de um merch para vender e investir na viagem, e depois reinvestir em mais merch ainda para vender na viagem”.


A ideia da Julia na hora de botar os preços das camisas, por exemplo, é uma lógica interessante. Ela contou que sempre tenta fazer, pelo menos, com que uma coisa pague duas. Então, por exemplo, ao fazer uma camisa que o custo de produção é de 50 reais, no mínimo ela vende por 100. Com isso, é como se ela tivesse se pagando e pagando outra camiseta, o que mantém o ciclo de produção em fluxo.


Como produzir camisas e não sair no prejuízo?


As camisas são o foco de quase toda conversa que tive sobre merch. Apesar dos garotos da Sutil terem até destacado o baixo custo dos adesivos, por exemplo, e a liberdade criativa que eles proporcionam, as roupas representam o maior número de vendas e de lucro das barraquinhas dos artistas. Para produzir essas blusas, o método mais popular entre os entrevistados é a Serigrafia, método que consiste em utilizar uma tela, tinta e um stencil para imprimir as ilustrações desejadas.


O processo de impressão, de acordo com o Guilherme Vieira, é bem simples. Primeiro, você precisa achar um lugar que venda telas e faça o negativo das estampas, ou seja, o desenho invertido, para que a tinta entre onde ela precisa entrar para imprimir a imagem. Depois, são necessárias pelo menos duas pessoas para fazer o trabalho de impressão: uma segura a tela, a outra joga a tinta e passa o rodo para fixar. Por fim, é necessário limpar a tela para não entupir com a tinta, que ainda é solúvel em água entre 5 e 10 minutos após entrar em contato com o ar.



Um combo de serigrafia (telas, tintas e rodo) custa por volta de R$ 200,00, o que pode valer a pena dependendo da quantidade pretendida. Para a Julia Kürten, não vale a pena comprar esses produtos se você vai poucas peças: “Talvez valha a pena você fazer um stencil se forem poucas peças, é divertido também, tem essa energia punk, sabe, que é maneiro. Se você quiser algo mais profissional, acho que vale mais a pena você encontrar uma gráfica, talvez levar suas próprias camisas lisas, e estampa dessa forma se for fazer só 10 camisas”.


Porém, se você não quiser botar a mão na massa, algumas empresas profissionais podem ser a melhor opção. A Gráfica Silk Fuzz, de Santos, é uma das mais contratadas pelas bandas cariocas para fazer camisas e outras peças. Mesmo atendendo outros setores atualmente, eles me contaram que as bandas ainda são grande parte da demanda de impressão. Segundo a empresa, o problema é só quando os clientes pedem uma leva em cima da hora: “A serigrafia é uma área com vários processos e os clientes por desconhecerem acabam deixando sempre para última hora e isso dificulta muitas vezes, chegando em casos de não conseguirmos atender”.


A complexidade do desenho também afeta o caminho escolhido para fazer a impressão. Quando a peça é de mais de uma cor, o preço aumenta, seja fazendo com a empresa ou pegando para fazer você mesmo. É mais tinta, mais complexidade no trabalho, e isso tudo deve ser levado em conta na decisão.


A malha da camisa produzida é algo essencial de se pensar. Ela precisa ser confortável e durável, coisa que, para Julia, alguns artistas deixam passar batido: “Já vi vários que a gola é toda arregaçada, que a costura não tem esse cuidado, fica puxada, é estranho. Mas achar um bom fornecedor é bem difícil também”.


Além disso, é de se considerar que as pessoas vão querer usar aquela camisa, e por isso propositalmente escolhi duas bandas das quais eu já vi alguém em locais e momentos aleatórios usando algum merch delas. Esse é um sinal de que o merch está dando certo, o que amplia também a divulgação da banda e do seu material, alimentando esse ciclo: “Você tem que fazer uma coisa que as pessoas tenham orgulho de usar, que é uma coisa muito difícil, um desafio dessa área. Assim, a pessoa quer ter orgulho de se associar à banda, e isso é uma das coisas mais legais de fazer também, você está pensando na comunidade no geral”, afirma Julia.



Para além de lucros e logísticas, a criação e venda de merch faz isso, constrói uma sensação de comunidade. Usar uma camisa, colocar um pôster no quarto ou colar um adesivo no notebook são pequenas demonstrações de afeto do público, e por isso é importante pensar com carinho no que fazer, sempre com essa galera em mente. No evento em que entrevistei a Sutil Modelo Novo, fiquei mais de uma hora esperando o Guilherme terminar de falar com o pessoal que chegava na banquinha para conversar com eles, e isso mostra como essa prática reforça laços importantes para quem quer se jogar no mundo como artista.

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