A distância entre palco e artista: caminhos para entrar no circuito de shows da cena

Tocar ao vivo é o ápice da ideia de ser músico, sendo sua principal forma de se provar e de se conectar com o público. A dança que o palco dita se torna emoção por quem faz seu som ecoar, e é ali que o trabalho de um músico se materializa em propósito, já que os espectadores respondem diretamente ao que você quer exprimir. Existe, portanto, um desejo de estar no centro dos holofotes, que parte desde cantar no chuveiro ou no karaokê, da batucada em uma mesa para acompanhar uma canção dançante e fingir que é um baterista, até o que chamam de “borboletas no estômago” para definir a adrenalina de se apresentar.
Para chegar até esse momento, porém, é necessário mais do que apenas força de vontade. Conseguir fazer um show, ainda mais um que as pessoas vão assistir e ressoar o seu trabalho, é uma missão que conta com um caminho tortuoso e desgastante. É banda para juntar, músicas para ensaiar, casa de show para encher o saco, equipamentos para arranjar e, principalmente, é o desgaste até encontrar a eventual satisfação e, de fato, conseguir chegar no público da forma que sempre quis.
O terceiro episódio da série Sobrevivendo Independente pretende traçar os trajetos mais interessantes até esse objetivo, conectando histórias de diferentes artistas que, por diversos tipos de motivação e trabalho, chegaram aos palcos tomando atalhos que podem servir de inspiração tanto para quem está começando, quanto para quem está preso em um limbo de desilusão com a ideia de fazer show, sem conseguir encontrar seu destino final nos palcos. Além disso, também seguem algumas dicas para evitar transtornos e prejuízos nessa estrada.
Pavimentando caminhos para o estrelato
Cada um dos entrevistados é de um canto da cidade e de uma realidade peculiar, mas todos partem de uma vontade enorme de se apresentar para o mundo. A viagem começa na Ilha do Governador com Leonardo Justino, músico e fundador da Caninha Records, um coletivo musical que faz eventos pouco usuais na região. Essa, inclusive, não foi a primeira produtora de eventos dele, mas todas tinham a mesma motivação: a vontade de fazer quando não tem outra opção viável.
Leonardo começou sua carreira na banda Catiço, que só tinha um lugar para tocar na Ilha, o Isla Pub. De acordo com ele, o local tinha uma boa adesão de pagantes e uma divisão vantajosa de bilheteria, mas a administração do espaço não parecia entender os diferentes públicos que compareciam à casa: “Quando era show autoral, tinha bilheteria muito alta, mas o consumo era baixo, e quando era banda cover a bilheteria era pouca, mas o consumo era muito alto. Faltava direcionamento de público, eles não entendiam que no espaço que ele estava ele recebia bandas jovens, e o jovem não tem aquela grana toda para sair gastando, não vai ficar comprando bebida mais cara, e eles vendiam caro. Quando é o cover, geralmente é um adulto estabelecido financeiramente que vai assistir, ele vai comprar um balde de cerveja e ficar ouvindo Bon Jovi”.

Para não depender desse tipo de lugar para fazer o rolé acontecer, Leonardo começou a se organizar em coletivos para fazer seus próprios eventos e, literalmente, botar seu som em praça pública. Com a ideia de se cercar de gente interessada em colaborar com a realização dos eventos, cada um trazia um equipamento, apoio operacional e de organização para colocar diversas bandas de dentro e fora da Ilha em um pequeno bar na Praça Calcutá. Os shows eram públicos e ocorriam de dois em dois meses, se sustentando na base da contribuição voluntária e no pequeno pagamento que o dono do bar fornecia ao evento, sem dar nem um dedinho de lucro aos organizadores: “levar dinheiro pra gente mesmo não levava, pois tudo que ganhávamos ia de volta para o evento, para ter um próximo show melhor”, conta Leonardo.
Outro artista que teve que dar suas voltas para construir seu próprio caminho foi Micah, músico e produtor nascido em Sepetiba, mas que fez sua carreira em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio. Ele se descobriu como cantor no karaokê do bar de sua mãe, passou anos na banda da igreja (evento canônico do músico suburbano médio), e anos depois de ter abandonado o grupo religioso, se reencontrou na música e quase emplacou uma banda que não deu certo, mas deu origem ao seu primeiro EP, “Plantas no Fundo do Aquário”.
Porém, para divulgar esse trabalho e, é claro, fazer shows como grande parte dos músicos almejam, era necessário que existissem espaços para tocar, algo que se faz muito mais difícil de acontecer na Zona Oeste do que em outras regiões da capital fluminense. Com poucas opções disponíveis, Micah fundou com outros músicos e artistas da área o Coletivo Espiral, que surgiu como uma forma de juntar pessoas para organizar eventos e elaborar projetos para concorrer a financiamento de editais, assim criando seus próprios espaços para tocar e repercutir cultura na ZO.

“O Coletivo vem muito nessa perspectiva do independente, era muita correria em 2018, 2019, e eu nem sabia o que era edital na época, mas as bandas vinham com essa demanda de fazer evento junto, e Campo Grande tem essa coisa de que, às vezes, os espaços não se sustentam, fecham ou acabam”, relata Micah sobre a situação da cena da Zona Oeste e o nascimento do Espiral, que atualmente também organiza eventos de cinema, arte e outros, principalmente em locais como a Casa Bosque em Campo Grande e em lonas culturais da região, assim fomentando a cultura da região sem ter que se deslocar para locais com estruturas e cena mais definida, como Centro e Zona Sul.
Ambos os casos são bons exemplos de um primeiro princípio muito importante para quem quer tocar, mas não consegue encontrar um lugar que dê estrutura ou oportunidade para acontecer: junte-se com outras pessoas que gostam do negócio, e busque formas de fazer você mesmo. É uma perspectiva meio complicada de pensar sozinho, mas com muitos braços e aspirações inicialmente humildes, as coisas podem começar a andar.
Buscando a próxima parada
Seguindo viagem, chegamos em Niterói, com a banda Tem Mas Acabou, que é um fenômeno no que diz respeito a fazer show em tudo quanto é lugar, de tudo quanto é forma. Lena Quadros, vocalista, guitarrista e compositora do grupo, conta que as oportunidades surgiram a partir de convites do Yuri Terra, vocalista da Yuri e os Terráqueos, banda essa que é basicamente quase toda composta por integrantes da Tem Mas Acabou: “a Yuri e os Terráqueos já tinha um público, sempre fez show cheio com gente que sabia cantar as músicas, tinha fã-clube. E como na Tem Mas Acabou somos todos integrantes dessa banda também, ele ia pra São Paulo, Espírito Santo e levava a gente junto. Depois que outros amigos e artistas, vendo a gente tocar ao vivo, convidavam a gente para fazer shows em outras ocasiões, sem o Yuri necessariamente, com outras propostas, até porque nosso som é bem diferente”.
Claro que a chance de circulação que a banda teve é algo raríssimo de acontecer, mas a lição interessante de se tirar da história da Tem Mas Acabou é que, com tantas oportunidades, ela foi construindo seu próprio nome e se vinculando a outros micro-universos da cena. Um convite de Lê Almeida, fundador do Escritório Transfusão, para tocar com a Oruã, por exemplo, estendeu a ponte para a banda chegar a espaços dentro do Rio, e também conhecer outras bandas e pessoas. Agarrar qualquer chance de fazer novos contatos, portanto, se fez essencial para que a banda ganhasse autonomia e conquistasse novos públicos.

Mas estar dentro de ambientes tão colaborativos nem sempre é tão fácil. Pedro Pedrosa, artista solo com influências de MPB, circula entre espaços do Centro e da Zona Sul, territórios que possuem casas de show e cenas muito bem estabelecidas. Isso pode até ser vantajoso para quem já está introduzido dentro de certos círculos sociais, mas para quem está se construindo de fora disso, a barreira é sempre maior, ainda mais dentro do nicho que ele se propõe, geralmente rodeado de nepobabies e pessoas com muitos recursos para alavancar suas carreiras.
Pedro relata que, para quem está iniciando, os espaços para tocar são extremamente limitados devido à dificuldade do contato com as casas, e as coisas só melhoram quando seu nome começa a se espalhar por aí: “A partir do momento que você começa a construir, e no meu caso uma muito pequena e modesta, reputação, as pessoas começam a responder mais, mas os primeiros contatos que eu tive ninguém respondia, e você tem que ficar correndo atrás, tem que conhecer alguém que conhece alguém”, relata o músico, que lançou seu primeiro álbum, “Passo o Ponto”, em 2024, e teve muitos problemas para divulgá-lo no circuito cultural.

Isso é obviamente desanimador se você está aqui procurando uma forma de entrar no circuito, mas uma coisa em que todos os casos dos entrevistados em questão concordam é que, é muito difícil ganhar a atenção que você merece se você não se faz aparecer na cena, e para isso não é nem necessário estar tocando por aí, como conta Lena: “Antes de você pensar em fazer show, você tem que ser uma pessoa que gosta de show, sempre frequentar os espaços, ir num festival ou evento com bandas que você nem conhece, pois aí você vai entender uma dimensão do trabalho com música que não é óbvia, que não está escancarada”.
Ou seja, se fazer presente em shows, falar com pessoas e aumentar sua rede, consequentemente pode trazer mais oportunidades. Claro, nessas horas de trocar ideia com quem você vai conhecendo por aí, é importante que você tente se mostrar como artista, mas de preferência sem forçar muito a amizade. Busque pessoas que curtem coisas parecidas com você, troque interesses e as coisas podem acontecer de forma mais natural.
Outra dica interessante que o Pedro deu foi sobre o segundo show dele, que ele conseguiu a partir de uma inscrição em uma iniciativa da Prefeitura: “É um formulário que você envia seu nome, um vídeo de você tocando, duração e ficha técnica. É muito simples e o esquema deles é muito bom, pois você fica com 85% da bilheteria, o que é uma ótima porcentagem, mas eles não dão técnicos, então você tem que fornecer os seus. São teatros da prefeitura, e alguns tem um público muito fiel, outros você tem que levar seu público, alguns são bens equipados outros não, mas é uma coisa que acho muito acessível para conseguir show”. Confira mais informações aqui.
No meio do caminho tinha um perrengue
Fazer shows ainda tem algumas complicações que vão além dos contatos e dos locais que precisam te aceitar para tocar. Por exemplo, entre os entrevistados, poucos realmente tiveram retorno de bilheteria que de fato pagou alguma coisa. Geralmente as contas ficam no zero a zero ou pior, acabam dando prejuízo dependendo da cota exigida da casa de show e da adesão de público. A seleção de uma boa casa, por exemplo, pode condicionar um público maior a comparecer, mas talvez não o suficiente para pagar a taxa exigida pelo local.
E já se foi o tempo em que chamar público era mais fácil. Atualmente, a dinâmica de divulgação das redes sociais atuais, principalmente no Instagram, preza por um imediatismo e um reforço excessivo que, para Leonardo, é desgastante e complicado demais. Ele destacou a ferramenta de eventos do Facebook que era, de fato, um facilitador muito maior da construção de público. Você convidava pessoas, via quantas iam e não iam, fazia posts dentro do evento para hypar os shows e a circulação era mais redonda.

– A gente sempre pensa nas redes sociais, como se colocar, como você precisa virar uma caricatura de si mesmo online para engajar, e todas essas palavras amaldiçoadas que vemos todo dia. Uma hora faz vídeo engraçadinho, outra faz vídeo sério, e eu particularmente tenho uma habilidade meio limitada nesse script que você precisa seguir nas redes. Aí me falam "Ah, mas tem que fazer vídeo chamando pro show", e eu não consigo, não combino com o tempo do algoritmo – conta Lena sobre o trabalho sisifiano de divulgação que as redes exigem atualmente.
Outro fator sempre complicado é a preparação, principalmente para lidar com pessoal e equipamentos. Pedro, por exemplo, é artista solo e conta com músicos contratados para tocar com ele, e passa por problemas para alinhar horários de ensaio: “um cara da banda é CLT e só pode à noite, o outro trabalha todo dia a noite, como você faz? Um só pode final de semana, o outro tá todo final de semana viajando a trabalho, e aí alguém tem que ceder. Quando chega no ensaio tem que usar bem o tempo, a galera fica conversando e você tem que ser chato, pois é pago e o tempo tá correndo.”
Leonardo, que lida mais diretamente com a organização de shows, passa por problemas que vão desde o corre para arranjar equipamentos e fazer as coisas andarem, o trabalho hercúleo de carregá-los até o evento e depois levá-los de volta para casa, e até mesmo problemas técnicos por falhas de comunicação com donos de certos espaços.
Como citado antes, os shows da Caninha ocorrem em bares na Praça Calcutá, na Ilha, e são bares no plural pois o evento já trocou de casa, devido não só a questões de espaço, mas também por alguns acidentes que já ocorreram, como a vez em que o dono do bar anterior não sabia a voltagem das tomadas: “Ele me falou que era 127, aí beleza, botei lá, e logo depois sobe um cheiro de fumaça, começou a tostar os equipamentos. Aí o cara fala "não, era 220", e a casa não tinha preparação pra isso, não tinha nada sinalizando”, relatou Leonardo, o que deu um prejuízo significativo para o coletivo. Inclusive, ele foi categórico ao recomendar que todo mundo que se dispõe a organizar shows compre um multímetro, para medir a voltagem e evitar dores de cabeça como essa.
Essa parte elétrica dos eventos tem que ser mesmo uma coisa de atenção, pois quando perguntei sobre perrengues de show para Micah, ele contou uma história de um show organizado para arrecadar fundos para a gravação de um álbum, mas que acabou foi dando mais prejuízo por isso: “A gente desmontou o estúdio e reuniu os equipamentos lá pra economizar grana, mas com certeza fizemos alguma besteira que queimou os amplificadores que eu tinha acabado de pagar. Tivemos que sacrificar as caixas de retorno para deixá-las viradas para o público, e elas eram bem inferiores então a qualidade do show caiu”. Moral da história: fique sempre ligado nessa questão de tomadas, voltagens, extensões e tudo mais na hora de tocar.
Coletividade é o melhor atalho
No fim das contas, conversando com esses personagens, tudo converge para algum nível de comoção coletiva. Para fazer shows, você precisa de pessoas contigo para embarcar na ideia e tocar com você, precisa de contatos para conseguir arranjar parcerias e locais para participar de eventos, precisa de um público que engaje com o que você expressa, precisa de uma equipe para organizar as coisas e não deixar a peteca cair, e todo mundo tem que estar muito bem integrado para a engrenagem rodar e tudo dar certo.
E se parar para pensar, faz muito sentido. Quando você idealiza o palco, a vida de rockstar, diva pop ou seja lá o que passar na sua cabeça enquanto está no banho fingindo que o shampoo é um microfone, tudo que se imagina é a mágica de se apresentar, de entrar em sintonia com o público. Porém, a realidade para fazer isso acontecer dói muito mais, principalmente com a quantidade de esforço e de sacrifícios envolvidos no processo.
Mas também quando tudo dá certo, quando as conexões são reais e palpáveis, talvez poucas sensações sejam melhores, como conta Lena: “Nada se compara à sensação de tocar ao vivo com as pessoas vendo e interagindo, dá um negócio, uma espécie de arrepio, foge da explicação racional. É a beleza desse encontro que acontece em torno da música”.


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