Gravar música com pouco (ou nenhum) dinheiro: a importância e os desafios da primeira gravação
Atualizado: 16 de ago.

O início de uma carreira musical passa, principalmente, pelo processo de composição, e a posterior vontade de que as pessoas escutem suas canções e o que você tem a dizer. O passo seguinte já é mais complicado: gravar esse projeto, seja ele um single solto, um EP que mostre o básico da proposta da banda ou um álbum, que é quase um mission statement do seu trabalho. Isso define a primeira impressão das pessoas, a imagem proposta pelo projeto e abre portas, ou ouvidos, para que o público te conheça e saiba o que esperar de você.
Só que, quando o assunto é gravação, essa pressão da primeira vez pesa muito na cabeça de quem está para lançar seu trabalho. Qual é a forma que você quer ser percebido? Você quer uma qualidade de áudio profissional, ou é adepto de uma filosofia mais “fazer do jeito que dá"? De qualquer forma, é um processo que envolve muita dedicação de tempo, exercícios de improvisação e criatividade e, principalmente, dinheiro e investimento.
O segundo capítulo da série Sobrevivendo Independente se propõe a investigar os métodos, escolhas e sacrifícios que os artistas passam para conseguir concluir a missão de ter seu primeiro projeto musical lançado, apesar de contratempos financeiros, físicos, de tempo e tantos outros que permeiam esse processo. Foram entrevistados artistas independentes que gravaram seus primeiros trabalhos em situações bem diferentes entre si, o que resultou em paletas sonoras muito distintas, ponto importantíssimo para quem procura se destacar na cena.
Como arranjar um local para gravar?
Um dos pontos de partida essenciais de um projeto musical é o ensaio, que também é importante para que a gravação saia de forma mais natural. Porém, pagar tempo em um estúdio para ensaiar já pode ser um custo considerável. Para economizar, Leonardo Justino, fundador do selo Caninha Records e atual guitarrista da banda Vícios de Placa Mãe, ensaia e grava seus projetos há mais de dez anos em um espaço na casa da avó. O local foi montado aos poucos, com a ajuda de amigos de sua primeira banda, a Catiço: “Um colaborou com a bateria, outro com amplificador, outro tinha microfone, e fomos montando. Era um quarto todo abandonado, sem acústica nenhuma”.

Leonardo também contou que, a partir do momento em que ele descobriu que poderia gravar as coisas em casa, tudo mudou na cabeça dele, mas suas primeiras demos ainda ficaram longe do que achava ideal. Com esse problema, sua primeira banda foi procurar um estúdio mais profissional para fazer as gravações, mas ainda sofreu certo desconforto por sentir certo distanciamento do dono do local. Para ele, encontrar um espaço com pessoas conhecidas ou, pelo menos, um ambiente acolhedor, ajuda a deixar o processo mais natural. “Quando você é novato e não conhece o cara do estúdio, você não sabe que tem tempo para timbrar as coisas, pra sentir a parada, e acaba ficando nervoso, tem medo do REC”, conta.
Dois personagens desta reportagem, Gabriel Nunes e Alvaro Mendes, conseguiram encontrar seu lugar de conforto por motivos que fogem da gravação. Previamente frequentadores do Escritório Transfusão, ambos atualmente ajudam com a organização da casa, conseguindo espaço para fazer a gravação de seus projetos. Gabriel toca tanto em projeto solo, como Umbriel, quanto como baterista na Ozymandias, e Alvaro é líder da banda Drogma, e ambos gravaram seus projetos dentro do estúdio da Transfusão com um certo alívio das pressões citadas previamente, apesar de ainda contarem com alguns problemas estruturais.
De acordo com Gabriel, a firma, como chamam afetuosamente o espaço do Escritório, preza muito pelo analógico, e conta com equipamentos de uma época em que esse era o mais barato a se fazer. Agora, as coisas mudaram e a estética lo-fi, algo que nunca foi intencional nas gravações do estúdio, teve uma escalada exponencial de interesse pelo público nos últimos anos. Por isso os equipamentos analógicos são muito mais caros do que os digitais, então quando algum deles quebra ou precisa ser repassado no Escritório, o custo para substituir é muito maior. Tanto que Leonardo contou que grava tudo, menos a bateria, que é gravada em estúdio, por equipamentos digitais em casa, o que barateia os custos.

Prós e contras da gravação em estúdio
O primeiro lançamento, como disse antes, é uma pressão absurda na cabeça de quem está prestes a botar a cara no mundo musical. "O trabalho de estreia é o que fica estampado, né? A gente quis investir mesmo nessa primeira impressão", foi o que o Guilherme Vieira, integrante da banda Sutil Modelo Novo, me disse quando perguntado sobre o processo de gravação do debut do grupo, “a teoria de q td vai dar certo no final”. Essa ideia pode ser decisiva dentro da forma de conceber o método de gravar seu projeto, já que ela está diretamente relacionada a qual nível de polimento você quer dar para a produção das faixas.
A opção dos meninos da Sutil foi procurar um produtor que se encaixasse com a proposta, o que segundo eles foi uma saga “aos trancos e barrancos” até encontrar a pessoa certa. E mesmo que tenham contado com uma produção mais profissional, provida pelo músico e produtor Leandro Bessa, que proporcionou uma base tanto de expertise quanto de aparato tecnológico para desenvolver as canções, a banda ainda morreu numa grana para conseguir pagar o serviço. Os integrantes do grupo dividiram o pagamento da gravação em 18 vezes, que por si só eram divididas não só entre os integrantes originais, mas também pelo Théo Necyk, que entrou no meio da gravação e ajudou com o pagamento das parcelas finais. Apesar disso, Théo conta que valeu a pena colaborar nessa questão, já que todos ficaram satisfeitos com o resultado, apesar dos inúmeros sacrifícios.

Para Alvaro, outros fatores complicados da gravação em estúdio são a relação com tempo e distância. Mesmo tendo períodos relativamente longos para tocar a produção do “Fotograma”, álbum de estreia da Drogma, e um controle criativo que permitiu deixá-lo do jeito que o músico desejava, ele ainda tinha que dividir espaço com outros compromissos que permeiam o Escritório, o que o fazia ter que aproveitar ao máximo cada minuto em sessão, enquanto ainda tinha que lidar com questões das complicações de ir e vir, já que o estúdio fica no Centro, e ele morava em Realengo na época, o que atrasou significativamente o processo.
Gravar em casa é uma opção viável?
Se você possui equipamentos que permitem fazer gravações de alta qualidade na sua casa, provavelmente não é a primeira vez que você gravou alguma coisa. Mesmo que alguns produtos que quebram um galho sejam mais acessíveis atualmente, toda a questão de preparar a acústica de um ambiente, investir em instrumentos de boa qualidade com certeza é algo que dói (e muito) no bolso. Porém, nem sempre o objetivo de um artista é um som mega cristalino.
Um dos maiores casos de sucesso na cena carioca da estética lo-fi, que é o que uma gravação caseira geralmente permite, é o da dupla "A casa mais estranha não tem número”. Com média de 12 mil ouvintes mensais no Spotify, a banda ganhou um cult following invejável, sendo citada em memes e páginas de música indie, muito por ter uma sonoridade casual e letras intimistas, de fácil identificação para jovens.
Eduardo Andrade, um dos compositores do grupo junto com Matheus Roque, afirma que as coisas nesse caso vieram de forma natural, e que havia uma prioridade maior de botar as ideias em prática do que um preciosismo estético quanto à qualidade das gravações: “Se consigo gravar, e até mesmo as condições precárias que eu tenho já atendem às necessidades, conseguindo passar uma sensação de ambientação, eu compro a ideia, e essa vai ser a versão definitiva dela, não trato ela como uma coisa que irá virar uma canção mais elaborada”. O primeiro EP da dupla, "não há nada aqui", e posteriores trabalhos como o primeiro álbum, “supapo”, seguiram nessa ideia, com gravações feitas de celular e microfones mais básicos feitos para computador, e ainda assim contam com alguns dos maiores sucessos da banda.

Também foi interessante observar essa relação despretensiosa com o método de gravar quando o Gabriel Nunes contou que, antes de entrar no Escritório, gravou um ep solo chamado “Ninho de Cobra”, que tinha somente baixo e percussão nas canções. De acordo com ele, todas as faixas de baixo do projeto foram gravadas num quarto que era um cubículo: “Na época eu usava um baixo ligado direto no amplificador e um microfone captando ele, um esquema mais enxuto, e isso é interessante também, poder brincar um pouco dentro dessa falta de acesso”.
Para improvisar, Leonardo relata que já até gravou vocais no banheiro, uma técnica menos incomum do que as pessoas imaginam para adicionar camadas de reverberação natural, mas que talvez não se encaixe em toda proposta de sonoridade. Mas, para o produtor, a liberdade e o custo de gravar em casa era o ideal nas condições do início da carreira: “Comprei uma interface de áudio pra mim, uma Behringer de 4 canais, tinha um notebook velho da minha irmã e vontade de fazer. Comecei a achar muito maneiro gravar desse jeito pois eu poderia fazer o que bem entendesse, e era eu fazendo, sabe”.
Essa coisa de botar a mão na massa, independente da disponibilidade de apetrechos, ganha até uma dimensão política para Eduardo: “Eu não vou esperar, quando componho já gravo logo. Se eu quero fazer isso, quer dizer que eu tenho que ter uma condição boa, uma boa aparelhagem para tornar minha música válida?”. Apesar disso, ele reconhece que nem todo mundo tem esse desprendimento: “Tem gente que é muito apegada ao que faz, e essas pessoas estão certas sabe? Se a sua música merece ser bem gravada vai lá, luta por isso”.
A importância de gravar
A gravação de um primeiro projeto também sacramenta ao que a banda ou artista veio, definindo o nicho específico que sua música pode encontrar, e por isso há tanto cuidado e medo envolvido no desenvolvimento dele: “Nós queríamos ter o nosso som, nossa cara, mas também fazer algo bonito, que vai ser a porta de entrada para a galera nos conhecer. Na Internet o primeiro contato é chegar e ouvir o álbum” relata Pedro Nigro, integrante da Sutil Modelo Novo, logo antes de contar sobre a relação do grupo com seus fãs, que aumentou exponencialmente nos últimos anos.
“Flores foi uma música que eu escrevi no meu quarto antes de ter a banda, e a galera elogia, canta, pede pra tocar nos shows e reclamando quando não toca”, conta Guilherme sobre uma das primeiras músicas da Sutil Modelo Novo. Para a banda, a reação do público ao material deles foi totalmente inesperada, com muitos relatos de que as canções tocam em questões íntimas e emocionais para os fãs, algo que deixa Pedro extremamente grato por estar na banda.
Com a banda do Eduardo, ocorreu um fenômeno que nem mesmo ele consegue explicar muito bem. De um projeto obscuro a números “assustadores”, como conta o músico, o algoritmo resolveu do dia para a noite aceitar a música da dupla e jogou ela para o mundo. Porém, para o efeito perdurar, quem precisa aprovar as canções de fato é o público, e eles acolheram muito bem o material da Casa mais estranha, criando uma legião de fãs que se identificam com as questões propostas pelas letras: “Acho um barato o pessoal comentando e compartilhando as músicas, mandando mensagem, é sempre muito maneiro. Ver que essas ideias interagem com alguém, que elas fazem sentido para as pessoas, é a coisa mais legal disso tudo”.

Mas o ponto mais gritante que ouvi nessas entrevistas foi o do Leonardo, sobre canções e bandas que caem no esquecimento por não terem algo gravado: “É melhor ter algo para ficar registrado na história, para as pessoas conhecerem, seja como demo, EP, o que quiser, mas tenha um registro. Isso é importante, pois o tempo é implacável. Posso te contar de bandas que eram tão boas mas tinham um perfeccionismo tão grande que acabaram não gravando nada”.
Eu consigo lembrar muito bem de artistas que vi ao vivo, adorei a música e as ideias ali propostas, e aquelas coisas ficaram só comigo, ou num vídeo péssimo de gravação de celular que ficou no YouTube, pois a banda acabou antes de conseguir gravar qualquer coisa com o esmero que achavam necessário. Deixar alguma coisa registrada é, portanto, uma questão de preservar a memória, já que lançar pelo menos alguma coisa é essencial para reafirmar a existência daquele projeto, independente do fim que ele tomou. Apesar de tudo, os registros sempre estarão lá, e alguém sempre vai achar e abraçar aquilo, pois eles farão parte de uma construção coletiva de uma era, um nicho, um gênero ou algo para se identificar.


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