VERAS II expande o universo clubber entre o prazer e a dor de crescer
Após furar a bolha com apresentação no Cultura Livre, Vera Fischer Era Clubber apresenta um segundo disco mais colorido e musicalmente diverso.

O primeiro show de Vera Fischer Era Clubber a que assisti foi em dezembro de 2025. Àquela altura, já ouvia o VERAS I praticamente desde o lançamento, em abril, e saí do Teatro da Universidade Federal Fluminense (UFF) falando todas as minhas frases na mesma prosódia da vocalista Crystal Duarte. “Ela poderia ter pegado aquele ônibus/só não pegou/ porque não correu”, eu brincava na saída, enquanto esperava pelo transporte público, parodiando e performando à minha maneira a faixa “A Gata Agora”.
Sempre enxerguei aquele disco de estreia quase como um dia na vida de uma clubber. Começa-se na praia, com o pôr do sol romântico de “Altinha”; anuncia-se a noite — e suas lembranças — com “Fantasmas”; desfila-se pela passarela do imediatismo de “A Gata Agora”; até que, quando as luzes se acendem, resta a ressaca emocional de “Eu sem depressão”.
VERAS II expande esse dia e, com ele, o próprio universo das Veras. À medida que as paredes na pista de dança são derrubadas, o club passa a comportar outras horas do relógio, outras velocidades e, principalmente, outras cores. Em outras palavras, o segundo grande lançamento de Vera Fischer Era Clubber parece mais interessado no que acontece dentro da cabeça das Veras enquanto dançam.
Desejo, vergonha, raiva, amadurecimento, inconstância, gozo e a inevitabilidade de continuar vivendo depois do ápice passam a dividir espaço com o hedonismo que já atravessava VERAS I. Até musicalmente a pista cresce, com mais espaço para pós-punk, BPMs menos frenéticos, linhas de baixo mais melódicas e uma presença instrumental muito mais colorida.

Essa expansão, segundo as próprias Veras, passa por entender a cultura clubber para além de seus signos mais óbvios. “O VERAS I é muito sobre o tangível do clube, o palpável. E o VERAS II está mais numa semiótica, no intangível desse lugar, na filosofia do clube”, explica a tecladista Vickluz. “O valor máximo ainda é o prazer e a busca pelo prazer. Agora a gente só está se apropriando de outros prazeres, de outras formas de falar sobre prazer”, complementa.
Entre um disco e outro, entretanto, não foi apenas o universo das Veras que cresceu, mas também a quantidade de gente olhando para ele. Quando assisti àquele show da UFF em dezembro, a banda ainda não havia passado pelo Cultura Livre. A apresentação no programa, exibida em março, furou uma bolha que até então ainda protegia, em alguma medida, as quatro integrantes. A repercussão levou as Veras para muito além do público que já frequentava suas pistas e, junto dos novos ouvintes, vieram também comentários hostis direcionados à banda.
“Claro que no começo foi um susto. A quantidade de comentários, a quantidade de ódio sendo destilado na internet em cima dos nossos corpos foi realmente bizarra”, conta a baterista Pek0.
Com o tempo, diz ela, a banda conseguiu respirar e compreender aquela reação dentro de um contexto maior. “Essa repercussão, por mais que tenha sido assustadora no começo, foi linda. A gente estourou a bolha e conseguiu chegar em pessoas que nem imaginava que ia chegar. E elas adoraram”, diz Pek0.
Nesse momento, com uma pista musicalmente mais ampla e mais lotada, chega VERAS II. Novamente produzido por Augusto Feres, responsável também pelo primeiro disco, o álbum abre ainda mais as portas do universo das Veras, agora com participações de Kiko Dinucci e de Katy da Voz e as Abusadas. A expansão chega até a capa, assinada por Bambi Pêssego, que, abusando da sinestesia, consegue transformar em imagem aquilo que ouviremos nas próximas dez faixas: um disco cor-de-rosa, mais tátil e interessado em embaralhar os próprios sentimentos com os passos de dança.
Sem mais delongas, até porque a entrada gratuita do club não dura a noite inteira, vamos ao faixa a faixa de VERAS II.
FALANDO DISCO: VERAS II
Favoritas de Yuri Neri: Buceta Gay, Quero Que Se Foda e Grito, Dano e Possessão.

Quero Que Se Foda
Seja no trabalho ou na vida pessoal, todos já lidaram com alguém inconveniente a quem, devido às convenções da vida adulta, não se podia xingar em alto e bom som, apenas mentalmente. “Quero que se foda”, que abre VERAS II, é a música que toca nos confins do meu cérebro nesses momentos — e já tocava mesmo antes de eu conhecê-la.
O que mais me impressiona é a densidade sentimental de cada palavrão proferido por Crystal, algo louvável em tempos em que eles nunca estiveram tão presentes na música pop, mas, de tão corriqueiros, vez ou outra parecem perder parte da força. Quando a vocalista das Veras canta “quero que se foda”, entretanto, não tenho dúvidas de que ela quer, mesmo, “que se foda/que se abra/que se exploda a porra toda”.
“É uma das minhas coisas favoritas em cantar: você pode literalmente introjetar emoção e intenção em cada frase”, explica Crystal. Para ela, a frase funciona como um mantra e, num disco sobre gozo e amadurecimento, “não tem amadurecimento maior do que mandar tudo se foder”.
Apesar do turpilóquio que te fará evitar ouvir a faixa sem fones ao lado de sua vó, “Quero que se foda” é uma música felicíssima e colorida. Já nos primeiros minutos, ela ilumina um universo que, em VERAS I, parecia existir quase todo à noite. Os novos pigmentos aparecem na linha de baixo de Malu Manc — que, no melhor dos sentidos, poderia ter saído de qualquer banda indie pós-Strokes dos anos 2000 — e nos backing vocals, praticamente ausentes no primeiro disco e muito mais importantes por aqui. Se VERAS I era, nas palavras de Pek0, “preto e branco”, bastam os primeiros minutos de sua sucessora para perceber que a paleta se expandiu.
Feitiço
O colorido já presente na primeira faixa encontra em “Feitiço” a beleza da inevitabilidade do movimento de rotação da Terra. Crystal a define como uma música do crepúsculo, “daquele instante em que o dia começa a desaparecer e as estrelas tomam o céu”. É também um “reggaeton de vingança”, mas de uma vingança estranhamente bonita: a vitória pessoal de finalmente superar alguém e perceber que, no fim das contas, é essa pessoa quem está te perdendo.
“Uma coisa muito especial dessa faixa é essa ideia de que, independente do que aconteça, a Terra continua girando”, conta Crystal. “A Terra gira independente do feitiço”, complementa a respeito de versos como “Te peguei fazendo comigo/o que a noite faz com o dia/extingue, domina”.
A Terra gira e, curiosamente, o BPM diminui. “Feitiço” desacelera justamente um disco interessado em expandir o que cabe dentro da cultura clubber. Pek0 vê no andamento mais lento uma possibilidade de introspecção, distante do estereótipo da pista frenética. “A letra e a sonoridade caminham juntas nessa fala sobre sentimentos, nessa ótica sobre se expor, nessa certa delicadeza”, explica.
Amor de Anjo
A beleza que encontramos até agora se vê diante de uma dualidade angelical e pagã em “Amor de Anjo”. O sentimento do título também é, na letra, “amor de puta”, mas anjo e puta não ocupam lados tão opostos quanto a princípio pode parecer. Crystal canta sobre a vergonha que acompanha o desejo, a vulnerabilidade de se entregar e a “estranha facilidade de querer quem nos trata mal enquanto recusamos quem nos oferece carinho”. “Um pedaço de carne nascido cheio de esperança”, como resume um dos versos mais bonitos do disco.
A vocalista atribui essa atração por opostos à própria natureza geminiana. “Tenho essa facilidade de ver duas coisas opostas como, na verdade, coisas que se encostam”, diz. De fato, apesar da visceralidade da letra, os teclados e os respiros deixados entre as entradas da percussão preservam o tom angelical. Voltando à minha era animer, penso que a faixa cairia como uma luva na abertura de algum desenho futurista à la “Ghost in the Shell”.
Com participação de Kiko Dinucci na guitarra e “Get Together”, de Madonna, como uma das referências confessas de Crystal, “Amor de Anjo” é, definitivamente, uma boa síntese do que VERAS II procura na pista de dança. Vergonha e tesão, delicadeza e sujeira, anjo e puta, carne e esperança — opostos que, de tanto se encostarem, começam a parecer menos distintos do que imaginávamos.
É O Pico, É O Ápice
Depois do relativo respiro do início, “É O Pico, É O Ápice” volta a pesar a mão no beat. Ela reflete, para mim, o exato instante em que o Chokito que você comeu um tempinho antes da festa finalmente atinge o auge do efeito. Os versos “A vida é um club/o club é a vida/a vida é um clímax/cavalos e suas lindas crinas/golfinhos e baleias e suas vozes femininas” retratam melhor esse estado de espírito do que qualquer tentativa minha de explicá-lo. Em outro momento, Crystal sentencia: “minha alma demanda esse desgaste”.
Toda crista de onda traz consigo a inconveniente certeza de que, logo depois, vem a queda. Crystal define a faixa como aquele instante em que, muito doido, você acredita que tudo finalmente se encaixou, mas isso não dura muito. “É o pico, é o ápice, mas você ainda tem uma vida inteira para viver”, resume, com bom humor.
Durante a entrevista, não resisti à proximidade fonética entre o título da canção e o nome de Pek0 e perguntei se ela se sentia homenageada pela faixa. “De certa forma, me sinto, sim, quase homenageada, mesmo que eu não seja o pico”, respondeu, depois de uma risada que escolho interpretar como espontânea, ainda que todas as evidências apontem para a educação.
Por sorte, Pek0 parece acreditar na redenção de pequenos constrangimentos. Para ela, “É O Pico, É O Ápice” encontra valor poético justamente naquelas histórias de balada que costumamos contar no dia seguinte entre risadas e algum arrependimento. Aqui, são reavaliados os episódios que, em outras circunstâncias, seriam relegados à categoria de “coisas que espero que ninguém lembre amanhã”. “A gente consegue pegar essas histórias e tirar a vergonha, tirar todas essas camadas de inibição, valorizar elas, torná-las belas e divertidas”, explica. Afinal, qualquer “mico” pode virar música.
Buceta Gay
Entre as minhas favoritas, “Buceta Gay” descomplica, com enorme valor poético, um assunto que ainda é considerado complexo por grande parte da sociedade, seja por ignorância, seja por homofobia. “Buceta gay/e um pau extremamente feminino”, canta Crystal com uma naturalidade quase desarmante. Pouco depois, uma voz falada constata, como quem acabou de reparar na previsão do tempo, “ai, o pau dela é feminino”. É isso. O pau dela é feminino. Ponto.
Não há um grande anúncio antes de falar sobre gênero, sexualidade ou sobre os corpos que habitam esse universo, porque esses temas simplesmente existem na vida das Veras. “No nosso meio, isso é natural. Essas ideias perpassam o nosso dia a dia”, desenvolve Crystal.
Pek0 enxerga essa naturalidade até no processo de composição. Quando as quatro se juntam para tocar, diz ela, “meio que tudo é permitido”. Palavras e assuntos que poderiam soar provocativos em outros ambientes são simplesmente parte da maneira como elas conversam. “Pro nosso grupo não é um tabu, graças a Deus. Mas, para outras atmosferas, parece ser”, reflete.
Ainda em“Buceta Gay”, destaco os teclados de Vickluz, que dão base à pista de dança construída ao redor da faixa. É para dentro dela que as Veras parecem nos puxar. “Você se sente numa pista de dança vendo aquelas vivências se desenrolarem”, diz Crystal. “Acho que isso é uma assinatura muito especial das Veras, que é trazer a pessoa para dentro da música.”
Grito, Dano e Possessão
A evolução no instrumental de VERAS II fica especialmente nítida em “Grito, Dano e Possessão”. As linhas melódicas dos teclados, somadas ao baixo de Malu Manc, bastante presente nos médios, me levam imediatamente ao New Order — e despertam em mim aquela inevitável vontade de dançar meio esquisito que todo bom pós-punk exige.
Até porque, se em “Feitiço” a redução do BPM abria espaço para a introspecção, aqui acontece quase o inverso. “Os BPMs mais acelerados trazem justamente o avesso. Essa ideia da ação, da raiva, de colocar as emoções para fora”, explica Pek0.
E há bastante coisa para sair. Crystal conta que “Grito, Dano e Possessão” dialoga com o filme “Possessão”, do cineasta polonês Andrzej Żuławski, e com a peça “Senhora dos Afogados”, de Nelson Rodrigues, a que ela e Pek0 assistiram no Teatro Oficina, em São Paulo. O encontro entre as referências está justamente nesse excesso de pensamento que já não cabe dentro da cabeça e começa a vazar para as ações. Ou, como Pek0 resume, “essa música é tudo sobre externalizar e agir diante do desejo”.
Prantos
Mais uma vez, VERAS II mostra o quanto a banda expandiu seu vocabulário instrumental, mas agora são as percussões de Pek0 que mais me pegam. “Prantos” continua em 4/4, embora passe boa parte do tempo tentando convencer meus ouvidos de que não. A bateria sequenciada foge da pulsação mais reta e cria um balanço meio torto, à la Talking Heads, que Pek0 descreveu com termos muito melhores que os meus. “Acho que ela ficou bem cremosa. Um movimento gostoso e amanteigado.”
A pequena vertigem instrumental encontra sua equivalente na letra. Crystal imagina “Prantos” como a cena de uma heroína de filme de terror andando ensanguentada pela beira da estrada depois de finalmente vencer o monstro. É uma imagem de vitória, mas também levanta uma questão sobre a qual os filmes convenientemente não costumam se alongar. O que a final girl faz na manhã seguinte?
Vesúvio
“Vesúvio” nem espera o beat propriamente dito entrar para ficar frenética. Desde os primeiros segundos, parece haver alguma coisa prestes a transbordar. “Eu sinto muito/eu sinto tudo/eu sinto pouco/um Vesúvio, eu explodo”, canta Crystal. Mais adiante, as contradições se acumulam — “inativo/ativo/passivo” — até desembocarem, novamente, na explosão.
Vesúvio é um vulcão ativo italiano conhecido, sobretudo, pela erupção que soterrou a antiga cidade romana de Pompeia no ano 79 d.C. Aqui, entretanto, a erupção é emocional. Crystal escreveu a faixa pensando na própria inconstância, naquele movimento de extravasar, se arrepender e logo depois oscilar novamente. “Todo mundo sente que tem várias versões de si e que é uma guerra eterna sobre quem vai tomar a frente no momento”, explica.
Nesta faixa, parece que todas as Crystais resolveram disputar o controle ao mesmo tempo — aqui, eu imagino diversos personagens de “Divertida Mente” brigando entre si. Há algo de “Amor de Anjo” nessa convivência de opostos, mas aqui a dualidade já não parece suficiente. Não são dois lados se encostando, mas vários estados se atropelando.
“Todo mundo eventualmente explode, à sua maneira”, diz Crystal. “Todo mundo chega a um ponto de limite e acaba ultrapassando”, conta.
Chic Chic
“Chic Chic” corre sério risco de, em algum momento, render um daqueles memes de Xique-Xique, Bahia. Superado esse pensamento intrusivo no início da análise, estamos diante de uma das letras de que mais gosto em VERAS II. “Você me faz, eu acho chique/a chave é o excesso, eu te dou acesso/confesso, seu charme é me encher de estrelas/luxo e luxúria, chique é quando um clique/e mesmo que você não fique, eu acho chique”. Destaco também a simplicidade e a beleza de “Me xinga no contexto certo: nunca pra magoar”.
A faixa foi a última a ficar pronta para o disco, embora tenha surgido ainda nos primeiros rascunhos. O que sobreviveu daquele esboço foi principalmente o beat, construído em um movimento que a banda descreve como de “contração e descontração”. Quando voltaram a ele já no fim do processo, cada integrante tentou identificar o que havia de essencial naquela primeira versão. Crystal ficou com o refrão — “chique demais, chique demais, chique demais, você me faz/eu acho chique” — e encontrou nele o que ainda sentia faltar ao álbum: gozar.
Depois de um disco tão interessado no que acontece dentro da cabeça enquanto o corpo está na pista, “Chic Chic” reserva alguns minutos para simplesmente curtir estar nela, ou na cama, ou onde o art. 233 permitir. “Faltava um momento no álbum disso, de curtição máxima”, conta Crystal.
Depois do gozo, no entanto, é preciso definir o que se faz com a calcinha agraciada com os fluidos da ocasião.
Calcinha Gozada
Descobrimos a resposta da questão anterior na última faixa, “Calcinha Gozada”, lançada como single antes do álbum. E é preciso levá-la para casa.
A parceria com Katy da Voz e as Abusadas encerra VERAS II na velocidade máxima e sem muita delicadeza. Desde o início, a repetição de “eu vou te dar/eu vou te dar” transforma o que poderia ser uma promessa em uma espécie de ameaça carinhosa. Aos poucos, descobrimos também o objeto da oferta, o “pano de puta”, ou “pano de porra”, que será entregue impreterivelmente.
A agressividade é parte fundamental da graça. Se “Chic Chic” era o gozo em sua versão mais luxuosa e festiva, aqui sobra a prova material, entregue com uma atitude que Pek0 aproxima do punk. “Nada mais punk do que você dizer ‘é isso mesmo, eu sou isso mesmo, a gente produziu isso mesmo’”, brinca.
A participação de Katy da Voz e as Abusadas nasceu de um encontro pouco planejado. As Veras já eram fãs do grupo antes mesmo de a própria banda existir e descobriram, durante um show, que a admiração era recíproca. A demo já existia, contatos foram trocados e a resposta foi gravada a distância. Segundo Crystal, não houve praticamente nada para explicar. “Elas pegaram completamente a vibe.”
Pek0 destaca como Katy da Voz e as Abusadas já trabalham a agressividade dentro da música eletrônica e enxerga algo quase cerimonial na participação. “É quase como uma avaliação. Ser consagrada pelas mãezinhas.”
A bênção definitiva veio de improviso, no finalzinho da faixa. Ao terminar o “featuring” com a fala “Vera Fischer Era Clubber, meu amor, ERA Clubber, meu amor!”, Katy resolveu também o último problema que ainda restava às Veras — naquele momento, decidiram que “Calcinha Gozada” necessariamente encerraria o álbum. Depois, só resta levar a calcinha.

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