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PARAJORGE, de Yuri e os Terráqueos, é a trilha sonora do fim da escala 6x1

Foto do escritor: Yuri Neri
Yuri Neri
2 de set.
14 min de leitura

Segundo álbum da banda fluminense parte da rotina de Yuri Terra para falar de trabalho, cansaço, amores e da disputa pelo próprio tempo


Capa do disco PARAJORGE, estilizada em arte do site.
Capa de PARAJORGE, o primeiro disco do Falando Disco, quadro em que analisamos álbuns faixa por faixa!

Nem todas as 24 horas disponíveis no dia do trabalhador estão, de fato, à sua disposição. Um terço delas — ou mais — é entregue ao expediente profissional, numa troca em que esforço e neurônios são convertidos no dinheiro necessário para sobreviver ao tempo que ainda lhe resta. Outras frações ficam pelo caminho, nos deslocamentos, nas obrigações cotidianas e em tudo aquilo que é preciso fazer antes que alguma hora possa, enfim, ser chamada de livre. Nos poucos momentos restantes depois dessa subtração, resta uma margem mínima para descansar, dedicar-se a hobbies, amar, simplesmente fazer nada ou, quiçá, criar um dos melhores discos do ano.


PARAJORGE, segundo álbum da banda fluminense Yuri e os Terráqueos, faz desse relógio desigual — em que alguns podem dispor das próprias horas enquanto outros precisam vendê-las — matéria-prima para suas 16 faixas. Entre cansaço, deslocamentos, existencialismo capitalista, afetos espremidos e a sensação permanente de que falta alguma coisa ao fim do dia, o disco retrata uma realidade tragicamente familiar para quem vive sob a escala 6x1.


Com mais de uma hora de duração, o álbum encontra no próprio tempo de escuta uma extensão dos temas que atravessam suas canções. Em outras palavras, a duração do disco integra, de certo modo, seu conteúdo artístico: há algo de contraditório — embora coerente — em lançar um álbum longo sobre pessoas que não têm espaço livre na rotina.


“As pessoas não têm uma hora do dia a mais para ouvir um álbum. E, às vezes, naquela uma hora que têm, elas também têm o direito de não fazer nada, de descansar”, pondera Yuri Terra, vocalista e principal compositor da banda. Nesse paradoxo, o músico enxerga a duração de PARAJORGE como uma espécie de enfrentamento à própria escassez de tempo que inspira o disco. “Com uma hora de álbum, acabou virando um confronto mesmo.”


Foto da banda em um show, à noite.
Yuri, os Terráqueos e o público do Barricada, no show de lançamento de PARAJORGE. Foto:

Terra conhece essa falta de tempo também fora das canções. Quando não está à frente de Yuri e os Terráqueos, o músico vende várias das horas de seu dia. Nascido e criado em São Gonçalo e atualmente morador de Niterói, trabalha em uma loja no Plaza Shopping como assistente de serviços gerais, em uma função em que cobre folgas e férias dos colegas. Por isso, não tem um turno fixo e, a depender de quem precisa substituir, pode trabalhar pela manhã ou à noite, em horários que mudam ao longo da semana.


Foi preciso acompanhar essa rotina para entrevistá-lo: a conversa começou às 23h de uma terça-feira, depois que Terra chegou do trabalho. Ao longo das duas horas seguintes, o compositor contou ao Proscênio que, inevitavelmente, o cotidiano profissional atravessou também seu processo criativo.


“Eu percebi que queria falar sobre trabalho quando notei que todas as músicas que estava escrevendo passavam por isso, tanto pelo que eu vivia quanto pelo que via nas outras pessoas”, conta.


Capa de PARAJORGE.
Capa interessantíssima de PARAJORGE, capturada a partir de câmeras urbanas da NITTRANS, por flipmags

A percepção marca também uma mudança em relação a Estranho Novo Mundo, primeiro álbum de Yuri e os Terráqueos. Lançado em 2023, o disco reunia composições feitas ao longo de diferentes momentos da juventude de Terra. “Tem música de quando eu era moleque, música do adolescente. Falava muito sobre mim, sobre o meu coração, sobre as pessoas que viviam do meu lado”, lembra.


PARAJORGE não é necessariamente menos pessoal. Talvez seja justamente o contrário. Ao escrever sobre o próprio cansaço, o trabalho, a falta de tempo e as inseguranças da vida adulta, Terra encontrou experiências que deixavam de ser somente suas. “Hoje eu penso mais coletivamente. Talvez, nesse álbum, tenha pensado mais em falar meu sentimento através do que fere muita gente”, reflete.


Essa relação entre falar de si e falar do outro está inscrita até no nome do disco. Yuri é uma forma eslava do nome grego Georgios, do qual também deriva Jorge. Conhecendo esse significado, em muitas ocasiões e há bastantes anos, Terra passou a usar o nome “Jorge” como uma espécie de codinome ou de persona.



Jorge, portanto, é outro sem deixar de ser Yuri. Essa duplicação ajuda a explicar por que PARAJORGE funciona tão bem como título. O álbum é profundamente autobiográfico — atravessado pelo trabalho, pelos ônibus, pelo casamento, pelas inseguranças e pelas dúvidas de Terra — e, de tão pessoal, torna-se coletivo. Não é PARAYURI, é PARAJORGE, mas Yuri é mais um entre tantos Jorges que vendem boa parte do próprio tempo para sobreviver — e gostariam de ter um pouco mais dele para viver.


Antes de chegarmos ao faixa a faixa, vale comentar que Yuri e os Terráqueos existe desde 2017 e, desde setembro de 2025, é formado por Yuri Terra, Lena, Dru, Otavio Brunet e Wilson Neto. Foi essa formação que levou PARAJORGE ao estúdio — ou, na maior parte do tempo, à casa do próprio Brunet. Guitarrista da banda, ele assumiu também a produção e a engenharia do álbum, concentrando em casa boa parte das gravações e da mixagem. As baterias foram uma das exceções, registradas na NEU Niterói, enquanto algumas vozes e sintetizadores foram gravados no Barricada, que também é o selo da banda.


FALANDO O DISCO: PARAJORGE


Favoritas de Yuri Neri (o jornalista que escreve essa matéria, não o Yuri Terra. Meu Deus, quantos Yuris!): DEUSREEXISTE, HITDOTRABALHADOR e ÔNIBUSDORIO.


Dividido em quatro atos — cansaço, amor, insegurança e crise —, o álbum reúne 16 canções. Conheça todas as faixas do segundo álbum de Yuri e os Terráqueos a partir de nossa análise e de comentários do próprio Yuri Terra.


HITDOTRABALHADOR


PARAJORGE começa explicitando sua tese. “HITDOTRABALHADOR”, faixa que abre o disco e o primeiro de seus quatro atos — cansaço —, discorre sobre as dificuldades da rotina de quem “carrega os pesos em seus ombros de uma forma literal” e “vivencia o caos numa forma literal”.


No caso de Terra, parte desses versos poderia ser lida quase como relato. O músico canta sobre levantar cedo, encarar a condução cheia e dividir o caminho com pessoas que, como ele, estão ali para garantir a própria sobrevivência. Até o peso sobre os ombros escapa da metáfora. “O meu serviço exige muito do meu corpo. Então fui bem sincero quando escrevi essa música”, conta.


O resultado é uma faixa ríspida, mais pesada do que as encontradas no primeiro disco, tanto musical quanto conceitualmente. Destaco os backing vocals do refrão, que, em meio à aspereza da canção, abrem um espaço de delicadeza e tornam, pelo contraste, seu peso ainda mais evidente.


Ao fim, a voz de José Mujica aparece quase como uma síntese do que acabamos de ouvir. Em um de seus discursos mais conhecidos, o ex-presidente uruguaio argumenta que aquilo que compramos não é pago verdadeiramente com dinheiro, mas com o tempo de vida que gastamos para conquistá-lo. “A única coisa que não se pode comprar é a vida”, diz o trecho incorporado à faixa. “A vida se gasta.”


Se dinheiro é tempo de vida transformado em moeda, trabalhar para garantir o básico significa gastar parte da própria existência simplesmente para continuar existindo. A própria rotina de Terra cabe bem nessa equação: “Eu tô numa fase da minha vida em que eu tô sobrevivendo. É trabalhar pra viver mesmo, pra estar vivo, pra comer, pra respirar”, desabafa.


MORTO


Enquanto “HITDOTRABALHADOR” encontra seu personagem ainda em meio ao trabalho, “MORTO” mostra o que restou dele depois de tantos expedientes. “Morto, ele tá morto /morreu de cansaço (...) / morreu de tanto trabalhar”, anuncia o refrão, numa hipérbole que leva o esgotamento profissional às últimas consequências.


A conta do tempo reaparece de forma especialmente amarga quando Terra canta sobre alguém que, embora tenha vinte e poucos anos, dispõe de apenas vinte e poucos dias para viver. Eu interpreto a imagem como uma referência às férias, breve intervalo de uma existência organizada em torno do trabalho — e que parece encolher ainda mais quando, “com o passar dos anos, foram ficando curtos os dias de prazer”.


“É uma hipérbole sobre o cansaço de trabalhar, estar morto, sobre o coração ter parado, mas sua mente ainda estar pensando no que tem que fazer”, explica Terra. Nem a morte, afinal, parece justificativa suficiente para faltar ao expediente: “É sobre o pensamento ‘Meu patrão vai me matar porque eu tô morto no salão de vendas’”, brinca.


Musicalmente, “MORTO” reduz um pouco a voltagem da faixa anterior. É uma composição mais melódica, embora as guitarras de Otavio Brunet ainda ganhem destaque. É dele também a voz que encerra a canção — imitando um locutor do Guanabara, o guitarrista metamorfoseia a morte metafórica do trabalhador em mais um anúncio a ecoar pelo salão do supermercado. Uma conclusão mórbida e bem-humorada para outra grande composição de Terra.


Os cinco membros da banda, sentados lado a lado.
Yuri Terra, Otavio Brunet, Dru, Lena Quadros e Wilson Neto, da esquerda para a direita, formam a Yuri e os Terráqueos. Foto: Pedro Gabriel Alce

VIRAEMEXE


Em “VIRAEMEXE”, o trabalho começa a invadir também as horas que, em tese, não lhe pertencem. Terra canta sobre aquilo que esquece de fazer enquanto tenta dar conta de suas obrigações profissionais: “Vira e mexe eu esqueço das coisas / que eu posso, que eu tenho, que eu quero fazer”. Remédios, mensagens, compromissos e até pequenas promessas feitas a si mesmo acabam soterrados pela sobrecarga cotidiana.


“Eu esqueço de tomar um remédio, esqueço de mandar uma mensagem de bom dia, esqueço de fazer várias paradas por conta de estar sobrecarregado”, explica. O cansaço proporcionado pelo trabalho, aqui, ocupa o espaço mental necessário para lembrar da própria vida.


Destaco os versos “volta e meia eu acordo disposto / pensando em tudo que eu posso suprir / a promessa que foi feita pro corpo / sabendo que nunca iria se cumprir”, que traduzem a consciência de uma rotina que precisa mudar e, ao mesmo tempo, a dificuldade de escapar dela. Até há disposição para se cuidar, reorganizar a vida e atender às próprias necessidades, mas a promessa já nasce acompanhada da certeza de que, devido às tantas demandas, o corpo será novamente deixado para depois.


HORADEIR(DEUAHORA)



“HORADEIR(DEUAHORA)” encerra o primeiro ato de PARAJORGE levando ao limite a disputa pelas horas do trabalhador. “Mostro tudo que passo pra chegar / você se faz de besta”, canta Terra, dirigindo-se aos superiores que cobram a sua presença sem precisar percorrer o mesmo caminho.


“Ali eu tô falando muito de trabalho, do fato de ser diferente da pessoa que tá me travando. Eu tenho que pegar a condução lotada e, quando chegar em casa, ainda preciso preparar a janta e fazer várias paradas; e essa pessoa vai de carro, mora a dez minutos do emprego”, explica Terra.


O título da faixa, portanto, funciona quase como um aviso: deu a hora. Depois de quatro músicas sobre o cansaço e as coisas que roubam tempo — o trabalho, o transporte, as cobranças e a sobrecarga —, é preciso ir embora.


CAMINHARÀNOITE


O segundo ato de PARAJORGE encontra espaço para aquilo que o trabalho deixa para depois: amar. “CAMINHARÀNOITE” abre o que Terra chama de “setor amor” do disco, dedicado aos sentimentos românticos e às dificuldades de encaixá-los em uma rotina que deixa pouco espaço para qualquer coisa além de ser produtivo.


Com pouco menos de um minuto e escrita pelo baterista Dru, a faixa é também a mais curta do álbum. A pequena letra combina com a cena que descreve: duas pessoas que encontram no caminho de volta para casa um dos poucos momentos disponíveis para ficarem juntas.


“É só caminhar daqui até ali, até em casa, te deixar no portão, te dar um beijo de boa noite e ir embora pra minha casa”, interpreta Terra. “Você escolhe ir andando pra aproveitar mais o tempo, porque você sabe que chega em casa e tem que dormir e trabalhar no dia seguinte”, reflete.


TEMPOREI


Acústica e mais intimista, “TEMPOREI” acompanha a ansiedade das primeiras vezes de um casal. Primeiro beijo, primeiro encontro, primeira transa, primeiro teto dividido: a faixa percorre aqueles momentos em que um relacionamento ainda é feito de descobertas — e do nervosismo que costuma acompanhá-las.


“Eu já falo mais sobre o amor mesmo, sobre a vida do casal”, resume Terra. “Não estou falando só sexualmente. É sobre várias coisas: primeira vez que vai ao cinema, primeiro beijo, primeira vez que se vê. Aquele medo, aquele nervosismo”, explica.


NÓSDOIS


Um dos pontos altos do disco, “NÓSDOIS” dá continuidade à história de amor esboçada na faixa anterior. Depois da ansiedade e das descobertas de “TEMPOREI”, a relação ganha aqui a forma de uma declaração simples e direta, inspirada no casamento do próprio Terra.


A canção começa ainda mais intimista que sua antecessora, quase como uma confidência. Aos poucos, porém, a banda entra e amplia a declaração, levando a faixa para um instrumental grandioso — embora ainda minimalista —, sem abandonar a delicadeza do início.


Contracapa de PARAJORGE.
Contracapa de PARAJORGE e créditos, por flipmags

PASSAGEMDEDESTINO


Com pouco mais de um minuto, “PASSAGEMDEDESTINO” inaugura o terceiro ato de PARAJORGE, dedicado à insegurança e à ansiedade. “Estou preso no amanhã / destinado a viver o hoje / lamentação”, canta Terra, sintetizando a angústia de quem se preocupa tanto em fazer o futuro dar certo que mal consegue habitar o presente.


A inquietação aparece também no instrumental. Sem bateria, a faixa encontra tensão em progressões tortas de acordes, que parecem nunca se acomodar completamente.


BALADADAMENTE


Em “BALADADAMENTE”, a insegurança deixa de dizer respeito apenas ao próprio futuro. “Pensar no outro me faz delirar / eu preciso mudar”, canta Terra, introduzindo uma ansiedade que nasce também da responsabilidade de existir para outras pessoas — e do medo de não conseguir estar presente para elas.


“A gente, como trabalhador, está cansado e pensa muito no nosso, sendo que tem pessoas em casa que precisam da gente. Tem pessoas nas nossas famílias que precisam da gente”, explica. Nesse sentido, pensar no outro significa também pensar no amanhã: no que será preciso fazer, garantir e sustentar para além da própria sobrevivência. A faixa rende um belo dueto entre Yuri Terra e Lena.


BESTA


“BESTA” retorna a uma das violências que atravessam o disco: a ideia de que cumprir sua jornada não basta e de que o trabalhador deve estar sempre disposto a entregar um pouco mais do próprio tempo.


Terra parte, novamente, da experiência pessoal. “Eu já trabalhei em lugares em que a gente tinha que ficar pós-horário e, se você não ficasse, era muito mal visto. Papo de ser mandado embora”, conta. “É meio que cobrar uma parada que não é minha obrigação fazer. Você tem que se doar mais, sendo que você não precisa se doar mais. Você não tem que se doar mais”, desabafa.


Toda essa cobrança desemboca em um refrão de poucas palavras: “você não vai embora”, simples e belíssimo. Terra é um ótimo refrãozista e, mesmo abordando a brutalidade do trabalho, não abre mão da beleza.


DIFERENTE


“DIFERENTE” retrata o momento em que o trabalhador está tão desgastado que deixa de acreditar na possibilidade de mudança e passa a aceitar aquilo que lhe faz mal. “É se conformar com o que tá ruim e foda-se”, resume Terra.


Diferentemente de outras faixas mais autobiográficas de PARAJORGE, a canção parte também de histórias que o compositor ouviu. “São relatos de vida, de pessoas trabalhadoras falando sobre seus trabalhos. Que já não tinha mais jeito, já não tinha pra onde correr”, conta.


Um dos versos mais interessantes do disco ajuda a condensar esse esgotamento: “cansado de ouvir pela sei lá qual vez ‘obrigado’”. Na minha visão, o “obrigado” permite pelo menos duas leituras. Pode ser aquilo que se espera do próprio trabalhador, submetido a cobranças excessivas e ainda pressionado a agradecer por ter um emprego; ou o agradecimento repetido de quem é servido por ele, lembrando, a cada nova ocorrência, a posição que ocupa naquela relação. De certa forma, até uma palavra associada à boa educação se torna parte do desgaste.


ACEITAR


O conformismo chega ao limite em “ACEITAR”, última faixa do terceiro ato. Aqui, Terra assume a perspectiva de um trabalhador tão explorado que já não encontra forças nem para se indignar. “Demorei, mas entendi / tudo tem seu preço / ninguém quer ficar pra trás nesse jogo que é a vida, eu transcendi”, canta.


A história foi inspirada por um conhecido Terra cuja rotina, segundo o último, já comprometia até a relação com o filho. “Ele era muito explorado. Isso já afetava a vida dele de uma forma que era triste. O maluco era pai e não podia ter muito contato com a criança por conta do trabalho. O horário dele era muito, muito fodido”, lembra.


Na letra, até um pão que caiu no chão serve para ilustrar esse conformismo com a depressão capitalista. O protagonista não sabe se um lanche adquirido foi ou não bem higienizado, mas “o que não mata engorda”. Ainda assim, há alguma identificação com quem está do outro lado do balcão. Quem fez o pão, afinal, “é como eu / sofredor / um sonhador”.


ÔNIBUSDORIO


Talvez minha faixa favorita de PARAJORGE, “ÔNIBUSDORIO” é uma espécie de “Emoções”, de Roberto Carlos, para quem passou a vida nos ônibus da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Se chorei ou se sorri, o importante é que, de ônibus, entre um ponto e outro, eu vivi.


“Eu vivi tudo que posso imaginar / nos ônibus do Rio/ já beijei quem eu gostava / já xinguei, até sorri / e senti medo”, canta Terra. Mais à frente, a enumeração mistura pequenos perrengues e memória afetiva com bom humor: “já perdi o ponto, celular / mais de uma vez / roubaram meu coração”.


A inspiração vem de uma relação que começou cedo. Terra lembra que já pegava ônibus sozinho aos 12 ou 13 anos para ir à escola e que algumas de suas lembranças mais marcantes aconteceram dentro deles. Foi em um ônibus, inclusive, que sofreu seu primeiro assalto, ainda criança, quando voltava da escola e seguia para buscar a irmã.


“Em um dia, eu tava meio chapado e falei: ‘Caralho, mano, quanta coisa eu já vivi no ônibus?’”, recorda sobre a origem da música. “Todo mundo, eu acho, já teve aquela sua paixonite saindo de um ônibus, já perdeu um ponto, já dormiu, já perdeu algum item”, reflete.


OHOMEMDABAGVERMELHA


Se Jorge Ben tem “O Homem da Gravata Florida”, Yuri e os Terráqueos apresentam “OHOMEMDABAGVERMELHA”: um personagem suburbano, motoboy e, ao que tudo indica, do mal. A história de um entregador que agride pessoas serve de ponto de partida para uma das maiores viagens de PARAJORGE.


A faixa nasceu de um improviso e foi gravada inteiramente ao vivo na NEU Niterói. Apenas a parte cantada estava previamente definida; antes e depois dela, a orientação era tocar, observar uns aos outros e descobrir coletivamente para onde a música iria. “A gente vai se olhando, vai tocando e vamos ver onde a gente vai se encontrar”, aponta Terra. “Começamos a improvisar, improvisar, improvisar... e esse foi o resultado.”


O caráter imprevisível permanece nos shows. Como boa parte da extensa faixa surgiu no momento da gravação, nem a própria banda consegue reproduzi-la exatamente. “Ao vivo, cada dia é uma versão diferente”, explica Terra.


DEUSREEXISTE


Depois de acompanhar personagens espremidos pelo trabalho, pelo tempo e pelas próprias inseguranças, a crise chega às últimas consequências em “DEUSREEXISTE”. “Se há motivo para estar aqui / por que me esconder?”, questiona Terra. Diante do pequeno inferno capitalista habitado pelos eus líricos do disco, perguntar sobre o sentido da própria existência parece uma consequência bastante justa. Essa é outra das minhas favoritas.


Apesar do título e de versos que afirmam categoricamente que “Deus não existe”, a faixa não oferece uma resposta. Pelo contrário: Terra também canta que Deus existe. “As pessoas sempre ignoram que eu falei que Deus existe antes de falar que Deus não existe”, brinca. “É uma música muito mais agnóstica do que qualquer outra coisa.”


Composta por Terra e Dru, a dúvida de “DEUSREEXISTE” se espalha das grandes questões para as mais ordinárias. Por que a cabeça dói? Por que o coração para? Por que o dente dói, a gente sangra, fala, come e dorme? Terra a define como “a música dos porquês”, uma sucessão de perguntas sobre o estranho fato de estar vivo sem receber um manual que explique exatamente o motivo.


PARAJORGE


Para finalizar o disco com mais uma faixa longa, “PARAJORGE” começa acústica e intimista, mas cresce com a entrada do restante da banda. A viagem, aqui, faz juz ao nome da banda, mas é também literal: Terra imagina a possibilidade de conhecer outros lugares, pessoas e até planetas, expandindo para o universo o existencialismo que domina a reta final do álbum.


“Ela fala muito sobre poder viajar por aí, como eu viajo na minha cabeça. Se eu tivesse a capacidade de conhecer outros lugares, outros planetas, conhecer outras pessoas”, explica. A principal inspiração foi “Errare Humanum Est”, de Jorge Ben, outra canção interessada em olhar para o espaço e imaginar o que existe para além daqui.


O título, curiosamente, nasceu antes de todo esse significado. A música já estava composta e PARAJORGE já havia sido escolhido como nome do álbum quando perceberam que aquela canção ainda não tinha nome. A solução foi torná-la a faixa-título. “A gente botou PARAJORGE só pra ter um nome, mas casou perfeitamente”, conta Terra.


OUÇA PARAJORGE


No mais, PARAJORGE é um amadurecimento nítido da banda e, definitivamente, um dos discos mais interessantes do ano. Ouça-o inteiro se tiver uma hora sobrando; parcelado, se não tiver. Seja no ônibus, voltando do trabalho, enquanto trabalha ou em qualquer tempo livre. E, quando puder, vá aos shows de Yuri e os Terráqueos!

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