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O Grammy Latino é uma piada

Foto do escritor: Yuri Neri
Yuri Neri
há 5 dias
4 min de leitura

Dos três brasileiros indicados ao Grammy Latino de Artista Revelação deste ano, dois têm sobrenomes curiosamente familiares. Zeca Veloso é filho de Caetano Veloso e Paula Lavigne; Loulu Gilberto, de João Gilberto com a jornalista Cláudia Faissol.


Não acho que Zeca e Loulu sejam artistas ruins. Muito pelo contrário. Os discos “Boas Novas”, do primeiro, e o homônimo “Loulu Gilberto”, da segunda, são ótimos. Mas é difícil encontrar retrato melhor de uma premiação que, ao tentar reconhecer e prestigiar a produção musical latina, parece repetidamente incapaz de olhar muito além dos nomes — ou dos sobrenomes — que já conhece.


Capa da matéria, com arte do
Reprodução: Academia Latina da Gravação/Arte: Proscênio

O problema ganha outra dimensão quando se observa o restante das indicações brasileiras nas categorias que não são exclusivas aos tupiniquins. Em "Álbum do Ano", há uma única representante do país, Anitta, com "EQUILIBRIVM".


Mais uma vez, o disco é bom e faz todo o sentido que a cantora de Honório Gurgel esteja entre os indicados. O que me incomoda é que parece que ela está preenchendo uma “cota brasileira”. “Tem que ter um brasuca só para não reclamarem”, imagino que a Academia defina. Para nunca ganhar. Sim, desde a primeira edição do Grammy Latino, em 2000, nenhuma obra brasileira tornou-se o “Álbum do Ano”.


Ano passado, a “cota BR” nessa categoria foi Liniker com "Caju". Em 2024, foi "Xande Canta Caetano". Ambos merecidíssimos. Em 2023 e 2022, a cota nem existiu. Certamente não fizemos nada digno o bastante em dois anos inteiros. Em 2021, foi o disco… “Nana, Tom, Vinícius, de Nana Caymmi”. O álbum é lindo, mas ele foi, de fato, o mais relevante daquele ano?


E já que estamos em 2021, vale olhar para outra das categorias principais do período. O Brasil ganhou “Gravação do Ano” com “Talvez”, uma música de Cezar Mendes com letra de outro filho de Caetano, Tom Veloso, gravada em dueto entre pai e filho. Novamente, se procurar no meu Last.fm, você vai encontrar inúmeros scrobbles dessa faixa, mas é mais um fato que corrobora nosso argumento inicial.


Como se não fosse o bastante, a impressão de que as grandes premiações estrangeiras conhecem a música brasileira por uma lista relativamente curta de nomes fica ainda mais engraçada quando saímos do Grammy Latino. O Grammy tradicional tem uma categoria chamada "Melhor Álbum de Música Global", sucessora da antiga World Music. Em 2026, ela foi vencida por… "Caetano e Bethânia Ao Vivo".


Print do Instagram da Letrux, em piada com "perdedora do Grammy Latino" em sua bio.
"perdedora do Grammy Latino", diz a bio bem-humorada da cantora carioca Letrux. Reprodução: Instagram


Eu fui ao show no Rio de Janeiro. Gostei, apesar de alguns problemas técnicos. Caetano Veloso e Maria Bethânia estão, sim, entre os maiores nomes que a música já produziu. Isso é indubitável. Contudo, digo com toda a sinceridade que não havia nada de extraordinário naquele disco. Era um registro ao vivo em que revisitavam, em grande parte, canções já consagradas de suas carreiras. Entre as poucas novidades estava, inclusive, uma das escolhas mais controversas da turnê, a versão de Caetano para um louvor evangélico. Mas não vou nem entrar nessa discussão. O que importa é que aquele não parecia exatamente o tipo de álbum que entraria para a história como o melhor produzido pela tal “música global” naquele ano.


Também não vou me alongar sobre as implicações potencialmente racistas de chamar de “World Music” quase toda música que não é anglófona ou europeia. Continuemos.


Se é para ser assim, ora com indicações que parecem estar ali só para constar, ora com escolhas que retornam aos mesmos nomes de sempre, por que o Brasil participa disso? Afinal, boa parte da nossa contribuição no Grammy Latino já acontece em uma espécie de campeonato brasileiro à parte. Rock ou música alternativa em língua portuguesa. Pop contemporâneo em língua portuguesa. Canção em língua portuguesa. Música urbana em língua portuguesa. E por aí vai.


E o pior é que nem nesse “Brasileirão” dentro do Grammy Latino conseguimos escapar das escolhas preguiçosas.


Na categoria “Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa”, foram escolhidas obras de Black Pantera, Chico Chico, Detonautas, FOTO EM GRUPO e Urias. Não tenho nada contra os outros quatro, mas, se a lista fosse minha, só “CARRANCA”, da Urias, sobreviveria.


Não é por falta de opção. Durante o período de elegibilidade, houve discos de Mateus Fazeno Rock, Pelados, Juçara Marçal com Thais Nicodemo, Antropoceno, Tangolo Mangos, Cidade Dormitório, Cidadão Instigado e por aí vai. Poderia continuar por mais algumas linhas, mas acho que a ideia já está dada.


Mas a Academia preferiu Detonautas. Em 2026. Numa categoria que carrega “música alternativa” no nome. Black Pantera é muito maneiro, mas Resistência! Ao Vivo no Circo Voador é um registro ao vivo que passou praticamente sem deixar rastro perto de vários álbuns de inéditas lançados no mesmo período.


Gostei do disco da FOTO EM GRUPO, mas é um projeto paralelo formado por integrantes de Anavitória, Lagum e Daparte que tinha acabado de lançar seu primeiro trabalho. Entre tudo o que aconteceu na música alternativa brasileira naquele período, foi realmente esse um dos cinco álbuns que a Academia encontrou?


Para finalizar, Chico Chico é um caso ainda mais engraçado para este texto. “Let It Burn / Deixa Arder” pode ser um bom disco — apesar de não ser do meu gosto pessoal —, mas acabamos de sair de uma categoria de Artista Revelação em que dois dos três brasileiros são filhos de Caetano Veloso e João Gilberto para encontrar, entre os cinco melhores álbuns brasileiros de rock ou música alternativa segundo a Academia, o filho de Cássia Eller.


De novo, não estou dizendo que nenhum deles possa fazer discos bons. Sou do time que, inclusive, costuma gostar dos nepobabies. Fui a uns três ou quatro shows do Bala Desejo, cujo “SIM SIM SIM” ganhou, em 2022, o Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Acho ótimo. Zé Ibarra, inclusive, um dos Balas, concorre neste ano a “Melhor Álbum de Música Popular Brasileira/Música Afro Portuguesa Brasileira”, com “Afim”. Na minha visão, merecidíssimo.


Minha indignação não é com os Velosos, Gils, Jobins e Gilbertos — muito menos com seus filhos —, nem com o espaço que continuam conquistando. O que me incomoda é que, quando o Grammy olha para o Brasil, seu campo de visão parece restrito aos mesmos círculos.


O Grammy Latino é uma piada — a importância que damos a ele só prolonga a punchline.

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